Papai Noel brasileiro é
ameaçado por diabetes

Por Expedito Rodovalho
Da equipe de festas e eventos

O Natal é alegria, congraçamento e festas, uma data que todos aguardam com expectativa. Mas não o Papai Noel. Pelo menos, não o Papai Noel Giulio Bonifanti. Para ele, o Natal e as festas de fim de ano trazem vigilância, preocupação e até mesmo medo. O motivo é inesperado: a cada ano ele fica mais gordo, o que traz outras ameaças, como o aumento do colesterol, do ácido úrico e o pior: a diabetes, que ele tem em níveis assustadores.

Aos 42 anos, 1,85m e 160 quilos, ele conta que, dois anos atrás, pesava 79 quilos, corria diariamente quatro quilômetros e tinha o físico de um atleta. Então, veio o pior.

“Fiquei desempregado, depois de 12 anos, não achava emprego e o jeito foi pegar trabalho de Papai Noel, a 30 reais por dia”, explica. “Acostumei com o negócio, me especializei e fundei até uma empresa, a Natal e Cia., que conta hoje com 15 Papais Noéis trabalhando a todo vapor, em lojas, fábricas e em visitas a residências. Agora, nesta época do ano, chego a ganhar até 500 reais por dia. O problema é ter que comer tudo o que oferecem. Resultado: em dois anos engordei mais de 80 quilos. Uma tragédia. Sem falar no colesterol e na diabetes, que foram lá pras alturas”, lamenta Bonifanti.

Ele diz que Papai Noel que é Papai Noel, principalmente o brasileiro, não pode de jeito nenhum recusar o que lhe oferecem quando está trabalhando.As pessoas consideram uma desfeita recusar, principalmente comida. Ele prova um pouco aqui, outro ali, e no fim do dia de trabalho, que pode durar até dez horas, segundo conta, já ganhou alguns quilos.

“A bebida é fácil recusar, basta dizer que você não bebe, que faz mal, desculpas assim. Mas comida, nem pensar. As pessoas acham uma ofensa não aceitar. A época é de festas, de emoção e comoção, por isso temos de comer”.

“Acreditem se quiser, uma vez, na casa de uma família muito grande e animada, me obrigaram a comer um prato de feijoada. Isso mesmo, feijoada, em pleno Natal! E numa casa logo adiante, uma família portuguesa, tinha no forno um imenso bacalhau. Quem resiste, não é mesmo? Cinco visitas depois, tive que ligar pra minha empresa e pedir um Papai Noel substituto, pois eu não agüentava nem andar”.

Paraíso e inferno

Problema semelhante enfrenta José Maria Tomazelli, jornalista, que teve que arranjar bicos para equilibrar o orçamento doméstico da família, mulher e quatro filhos, além da cunhada, que mora com ele.

Quando o jornal em que era redator fez cortes na equipe, ele foi um dos demitidos. Para sustentar a família, trabalhou como revisor de livros infantis, redator de bulas de remédio e até porteiro de hotel. Conta que não agüentou mais e saiu procurando emprego outra vez e o único que achou foi o de Papai Noel de uma cadeia de lojas.

“O dinheiro não era mau, o pior é que nas festas de fim de ano eu tinha de correr de loja em loja porque era só eu de Papai Noel. Depois, lá pelas 11 da noite, eu ganhava um extra visitando festas de escritório. Aí é que a coisa se complicava, pois me forçavam a comer e a beber todas”.

Aos 43 anos, pesando 130 quilos, Tomazelli conta que antes de virar Papai Noel tinha um físico de atleta. “Olha só pra mim agora”, ele aponta desconsolado para a grande barriga. Mas o que mais o preocupa são os altos níveis de colesterol(300), acido úrico e glicemia(360). Segundo diz, todos os seus amigos que trabalham como Papai Noel enfrentam os mesmos problemas de saúde. Ele conta que conhece pelos menos três colegas que morreram de doenças relacionadas à obesidade.

“Um trabalho como Papai Noel parece o paraíso pra muita gente. Um salário que não é ruim, muita comida e bebida quase o ano inteiro. No Brasil, é algo caído do céu. Mas é também um inferno de muitas ameaças, como vocês podem ver”, lamenta-se Tomazelli.