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Recentemente,
em tertúlia com amigos, aqui em Lugano, em pleno “dolce
far niente” de um fim de tarde, alguém levantou um
assunto que raramente é debatido. Trata-se da boemia em
países como o Brasil, que na maior parte do ano têm
temperaturas altas, beirando às vezes os 40 graus centígrados.
Ser boêmio por aqui é fácil: o frio funciona
como geladeira natural, realçando o sabor de queijos e
frios, que em geral costumam acompanhar uma boa degustação
de vinhos, cervejas, uísques, ou, para os abstêmios,
chás, chocolates e cafés.
Por aqui, qualquer tira-gosto vem acompanhado de um cesto cheio
de vários tipos de pães: italiano, francês
(baguete ou croissant), suíço e alemão (preto).
Não vou falar das sobremesas, já que tanto aí
como aqui, boêmio – eufemismo para bêbado –
quer mesmo é sal. Mas, quando há mulheres no grupo,
bebendo ou não, elas nunca dispensam doces, tortas e licores.
Fazer tudo isso numa temperatura de 40 graus, que, à noitinha,
cai para 36 graus, é coisa para profissionais. O boêmio
brasileiro – paulista, carioca, nordestino ou sulista –
é, antes de tudo, um forte, como diria Euclides da Cunha.
O chope esquenta em dois minutos, a cerveja idem, e basta uma
dose simples de uísque para acabar com o estoque de gelo
do bar. Vinho? Nem pensar. A porção de queijo –
de qualquer tipo – já vem “suando” gordura.
Agora, imaginemos o Rio de Janeiro, nas duas últimas décadas
do século 19, na passagem da monarquia para a república.
Naquela época, já havia boêmios por lá,
que não andavam de bermudas, chinelo de dedo e camiseta,
como hoje.
Nada disso. Para seguir o figurino, imposto pela nobreza européia,
os destemidos boêmios de antanho não dispensavam
fraque, casaca, bengala e chapéu. Era assim que Olavo Bilac,
Raimundo Correa, Artur de Azevedo e Emílio de Menezes,
dentre outros, adentravam a Confeitaria Colombo, para animados
“duelos” literários.
O que será que esses cavalheiros bebiam? Provavelmente,
vinhos e champanhes se fossem fiéis ao estilo francês
dos Orleans e Bragança. Mas, atenção, leitor:
não havia ar condicionado, gelo ou geladeira. Portanto,
qualquer coisa que bebessem teria de estar à temperatura
ambiente, variável entre 25 e 30 graus, durante a noite.
O período para o salutar exercício da boemia era
curto: ia das cinco ou seis da tarde até, no máximo,
e, excepcionalmente, às 22 horas. As madrugadas e as manhãs
eram usadas para fins menos nobres, como, por exemplo, dormir
e trabalhar (leia-se ir até alguma repartição
pública para ser visto).
Acontece que, se não dormissem durante as madrugadas, único
período em que isso era possível, em razão
das temperaturas mais amenas, passariam os dias insones. As manhãs
eram os períodos mais curtos do dia. Tudo o que tinha de
ser feito era providenciado até a hora do almoço.
Depois disso, a vida só recomeçava, a toda a velocidade,
após as cinco da tarde.
Á vida dos boêmios não era fácil. O
uísque – o cachorro engarrafado, o melhor amigo do
homem, nas palavras de Vinicius de Moraes -, sem gelo, seria no
máximo um cão feroz.
A cerveja, que hoje é bebida no Brasil supergelada, desceria
como uma sopa fria. O vinho tinto – um santo remédio
à temperatura de uns dez graus -, ingerido a uns 35 graus,
na melhor das hipóteses faria qualquer cérebro ferver
e daria um sono comparável à picada de uma mosca
tsé-tsé.
Quanto aos vinhos brancos e champanhes, como todos sabem, suas
principais características, como, sabor, aroma e buquê,
só aparecem em temperaturas, de preferência, abaixo
dos dez graus.
Exagero? Então faça você mesmo a experiência.
Beba uma taça de champanhe (pode até ser de marca
brasileira) borbulhante, a menos de dez graus. Depois, tente beber
o precioso líquido a uma temperatura de 30 graus.
Disso tudo, é fácil concluir que o prazer dos boêmios
daquela época, com certeza, não provinha da bebida.
As comidas, embora suculentas, exigiam fornos, tachos, travessas,
porcelanas, talheres e, sobretudo, cozinheiras, de que confeitarias,
leiterias e casas de chá, locais que atraíam a boemia
literária, não dispunham.
Portanto, o prazer deles era um só: fazer sonetos para
despertar o prazer delas. Ou então fazer trocadilhos
e pequenos jogos de palavras para competir entre si.
A propósito, vale a pena lembrar a genialidade e presença
de espírito, demonstradas por Emílio de Menezes,
quando, em companhia de alguns amigos inseparáveis, resolveu
visitar uma exposição de cereais.
“É milho”, disse-lhe um dos amigos, apontando
para o cereal e, ao mesmo tempo, fazendo um trocadilho com o nome
do poeta. Era um desafio.
Emílio sorriu, deu alguns passos, abraçado ao amigo
e, de repente, quando passou perto de uma cadeira, nas proximidades
de outros cereais, disse: “Sentei-o”. Em seguida,
acomodou o amigo na cadeira, indicando-lhe o centeio.
Não satisfeito com isso, acrescentou, deixando o amigo
estupefato: “Não cevada (queria dizer não
se vá), senão me (in) trigo”.
Que será que Emílio havia bebido antes de ir à
exposição? Talvez absinto. Sem gelo, é claro.
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Werner Ghestaldo, jornalista apátrida,
radicado em Lugano, na Suíça, foi correspondente,
em São Paulo, do “Corriere della Sera”, de
Milão, na década de 70. Nesse período, costumava
freqüentar, na companhia de amigos, o frigorífico
de um açougue, na Mooca, para beber vinho à temperatura
ambiente.
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