Modorras do Planalto

Cansei. A televisão do hotel, em Brasília, está desligada.

Chega de depoentes com olhos dopados e perguntas obsoletas de inquisidores da CPI.

O que ando vendo não merece ser registrado pelas teclas de minha Smith-Corona 1956, em bom estado de conservação.

Saudades de minha santa esposa Mary Ann? Sim.Deve ter engordado mais uns quilos, refestelada no sofá e se entupindo com donuts.

Fico aqui mais um tempo ainda, nessa modorra, sonhando com trutas dos riachos frescos de Iowa.

As colunas enviadas para o Weekly News me fazem cada vez mais cair em descrédito.

Que leitor, com um mínimo senso de entendimento, iria entender que – em meio ao caos políticos brasileiro – ninguém saiba de nada?

Dinheiro houve e dinheiro há. Malas e cueca recheadas com dólares passaram pela televisão. As gravações existem, o povo vê e ouve. Nega-se tudo. Nada houve e ninguém sabe de nada.

Normal, tudo normal. “Caixa 2 todo mundo usa”, disse o Presidente da República em um jardim em Versalhes. Está inclusa no Código Eleitoral como crime apenas para ficar mais grossinho.

Olho pela janela do hotel a paisagem de Brasília. Um aglomerado humano na rua me diz que houve uma trombada de CPIs em direção ao Congresso. E vai demorar um bom tempo para separar os membros das comissões que, acidentalmente, se misturaram.

As torres gêmeas do Congresso continuam de pé. Quatro boeings carregados de malas com dinheiro – além da caixa preta obrigatória – não conseguiriam derrubá-las. A assessoria de imprensa do governo, se assim acontecesse, negaria os boeings. E as torres.

A situação de meu colega e brasilianista inglês Kenneth Goodson não é diferente. Sua coluna política foi incluída na seção de humor de seu jornal e teme ser despedido de uma hora para outra. Está mexendo os pauzinhos para ser redator de videocassetadas em uma televisão menor do Condado de Worcestershire.

Desligada a TV, vamos às revistas semanais, terror do Presidente da Republica aos sábados pela manhã.

O dinheiro veio de Cuba, denuncia uma delas.

Imaginando altos dirigentes barbudos do PT engolindo seus charutos, penso também como poderia Fidel Castro explicar esse fato em um curto discurso de quatro horas e meia.

Diante desse novo fato, arrebato a Smith-Corona 1956 de sua caixa e começo uma nova coluna para o Weekly News.

Falando de trutas, claro.


* Stan O. Laurel, brasilianista desde 1964, confessa estar cansado da especialidade e pretende se aposentar daqui a dois anos, pois revela que nada mais de importante consegue extrair do Brasil. E considera seriamente tornar-se argentinista.