O papagaio tenor

Estava lendo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o H5N1 - variação letal do vírus da gripe aviária -, capaz de infectar seres humanos, quando meu mordomo James anunciou que resolvera, por medida de precaução, suspender o consumo de frango e de quaisquer outras aves.

Perguntei-lhe qual o motivo para medida tão drástica em razão de as autoridades britânicas não terem, por enquanto, feito o mesmo. “Será”, provoquei-o, “que você não está sendo mais realista que o rei?” Sua reposta foi lacônica: “O governo não é confiável”.

Além disso, argumentou o meu sempre surpreendente mordomo, esse vírus apareceu na Ásia e espalhou-se pela Europa, da mesma forma que o vírus transmissor da gripe asiática, que, em 1918 e 1919, matou cerca de 30 milhões de pessoas.

“De vez em quando”, comentou James, enquanto me servia o café da manhã, “além de doenças e epidemias, também vêm de lá – ele referiu-se ao Oriente como se tal região não fizesse parte do planeta e seus habitantes fossem uma espécie de marcianos infiltrados – alguns flagelos humanos, como, por exemplo, Átila, o rei dos hunos; e Gêngis Khan, o imperador dos mongóis”.

Diante de tantos e irrefutáveis argumentos, resolvi questioná-lo para ver até aonde queria chegar. “Mas, James, você esqueceu que o sol, a lua e as estrelas também vêm da Ásia e fascinam a humanidade”.

“É verdade, Mr. Goodson, mas acontece que nós, humanos, não temos o menor controle sobre o sol, a lua e as estrelas”.

“Ainda bem, James”, emendei.

Mas, voltemos ao banimento do frango do cardápio doméstico. James entendeu que eu queria mais explicações sobre o assunto e me contou uma fantástica história, que repasso aos leitores do Sacolão.

Tudo começou, segundo meu mordomo, há um ano, quando um colecionador de aves raras, residente no Amapá, resolveu visitar um arquipélago, localizado a Norte da Austrália, chamado Bismarck, pertencente a Papua-Nova Guiné.

Para o leitor ter idéia mais exata de onde fica tal país, é só lembrar que é lá que o vento faz a curva, o saci brinca de amarelinha, e Satanás de pega-pega.

O colecionador foi até o outro lado do mundo à procura de um papagaio raríssimo, em extinção, mesmo no seu habitat natural, que, além de falar, canta muito bem, imitando os tons de voz masculinos: tenor, barítono e baixo.

Esse papagaio raro, conhecido nos meios científicos como “Terrificus psitacidius”, é um sedutor sem par, ao menos no reino das aves. Ele é considerado mais prolífico do que os coelhos e capaz de cobrir até cem fêmeas por dia.

O “Casanova” das aves induz suas parceiras ao ato sexual, mesmo quando elas não estão no cio. Valendo-se, simultaneamente, de uma dança de acasalamento; da exibição do peito, que, como se fosse um prisma, reflete as sete cores do arco-íris; e de um gorjeio, parecido com o dos sabiás; ele hipnotiza a fêmea, que não consegue resistir a seu assédio.

O leitor pode imaginar a felicidade que tomou conta do colecionador de aves raras quando, após três meses de estada na Papua-Nova Guiné, voltou para o Brasil, de posse do seu fogoso papagaio cantor.

O plano do colecionador era simples e genial. Iria treiná-lo para cantar árias famosas de óperas. Seu sonho era exibir a ave canora em palcos famosos como o Scala, de Milão; o Opera, de Paris; e o Metropolitan, de Nova York.

Imagine, leitor, o Scala lotado, ouvindo o tenor da moda, fazendo um dueto com o papagaio, por exemplo, na pele do sedutor conde de Almaviva: “La donna é móbile, le piume al vento, muta d’accento, ed di pensier”...

Mais sensacional ainda: o papagaio, alternando a sua voz com a do tenor, de tal forma que cada um deles, a começar pelo cantor, entoaria um verso; no final, as duas vozes, juntas, fechariam a ária.

Com certeza, o teatro viria abaixo.

Tudo ia bem, de acordo com os planos traçados, até que, alertados por um vizinho, fiscais do Ibama resolveram monitorar o papagaio, colocando-lhe um chip num dos pés. A idéia era preservá-lo e descobrir uma fêmea para o acasalamento. Enquanto isso, permitiram que o dono ficasse com a ave rara.

Obviamente, o colecionador – seu nome é mantido em sigilo pelo governo britânico -, para se livrar da incômoda fiscalização do Ibama, resolveu mudar-se para o Suriname.

De lá, após algumas semanas, seguiu para Londres, onde pretendia concluir o treinamento da ave até a abertura da temporada lírica européia de 2006.

No período em que permaneceu no Amapá, o papagaio costumava fazer incursões diárias, nos horários em que dono se ausentava, nos quintais das casas vizinhas, repletos de galinhas e de frangas mais novas, que eram as suas preferidas.

Os galos de tais terreiros, obedecendo a seu atavismo biológico, não cobriam as frangas, à espera que elas se tornassem adultas. Só que o atavismo do terrível papagaio era outro.

Indignados e estranhando a presença da ave invasora nos galinheiros, os machos mais velhos esgoelavam-se na esperança de espantar o intruso. Mas o cínico papagaio continuava a seduzir as ingênuas e jovens galinhas.

Mais ou menos a cada dez fêmeas cobertas, o terrível psitacídeo fazia uma pausa para tripudiar sobre os pobres galos, que já não agüentavam mais de tantos e inúteis cocoricós. Fazia então uma espécie de gargarejo para apurar a voz e mandava ver: “La donna é móbile, le piume al vento”...

No aeroporto de Gatwick, ‘Tito (Ricardão) Schipa’ – é assim que o dono o chamava em homenagem ao tenor italiano homônimo – deu a maior bandeira, talvez em razão da dose de tranqüilizante, que lhe fora aplicada no Suriname, ter sido menor do que a necessária, misturando trechos de diferentes árias, no melhor estilo de um tenor de banheiro bêbado.

Foi o maior escarcéu na alfândega. O papagaio, apreendido, teve de ser submetido a uma quarentena, na unidade londrina de biossegurança, da qual saiu morto, vitimado pela gripe de algumas das frangas, que havia coberto.

Pedi a meu mordomo que fosse mais claro e deixasse de lado as prosopopéias.

James desculpou-se e desfez o enigma. “O Brasil”, disse, “é um dos maiores produtores e exportadores de carnes do mundo, certo? Acontece que parte do rebanho bovino está contaminada pela febre aftosa. Logo, logo, essa doença vai atingir os suínos e, quando isso acontecer, adeus às exportações dessas carnes”.

“E o frango com isso?, insisti. “Ora, o senhor sabe que mais dia, menos dia, a gripe aviária chega lá e, então, só restará ao Brasil exportar soja e, assim mesmo, a variedade não-transgênica”.

Vai ser um baque nas exportações brasileiras! Australianos, argentinos e uruguaios, dentre outros exportadores de carne bovina, já estão esfregando as mãos de felicidade.


* Kenneth Goodson é colecionador de psitacídeos raros (araras, arapongas, papagaios e periquitos) e de sabiás, sanhaços, canários belgas, curiós e pintassilgos não catalogados pelo Ibama, a maioria contrabandeada da Amazônia brasileira, via Suriname.