Me desarme que eu gosto

Eu não tenho garantias de que não me tomarão minha Smith-Corona 1956 nessa campanha do desarmamento, mesmo porque ela apenas transmite uma verdade seguindo a orientação de meus dedos e eles, por sua vez, dessa minha cabeça cansada que diverte meus leitores do “Weekly News”, de Iowa, Estados Unidos.

Não fui mais embora do Brasil e minha santa esposa Mary Ann deve estar pensando que vou ficar aqui de vez.

O clima está quente e bom para um brasilianista. Por dinheiro e truta nenhuma perderia essa catarata de escândalos – menos a do ex-presidente da Câmara, Severino, que se foi numa operação providencial.

Povo estranho esse. No meio de um furacão político equivalente ao Katrina, o governo convoca um plebiscito que decidirá sobre a venda ou proibição de armas.

Os nativos estão indóceis, diria eu, se estivesse com a minha bunda sentada na cadeira lá em Iowa, como tanto recrimina o presidente do Brasil.

Mas estou aqui, junto com eles, no meio da tormenta.

Também estão alguns meninos portando AR-15 em favelas do Rio de Janeiro, vez por outra dando uns tirinhos em direção ao povo nas ruas, fazendo que derrubem e abandonem suas marmitas para salvar a pele.

Votando contra ou a favor, eles sempre terão em mãos o que quiserem em termos de armamentos. Imagine se estarão preocupados com insignificantes calibres 38 que mal arranham carcaças de carros-fortes. Riem às bandeiras despregadas os bandidos, sabendo da possibilidade dessas míseras armas, entregues à polícia federal por pessoas decentes no início da campanha do desarmamento, já estarem em suas mãos, desviadas que foram por policiais corruptos.

Presumo que o povo brasileiro vá votar contra a venda de armas. É um povo da paz e ficará desarmado contra os bandidos.

Desarmados também ficará contra políticos desalmados que, numa atitude antropofágica, estão comendo uns ao outros.

Imaginem que fizeram renunciar o presidente da Câmara apenas porque recebia uma ninharia para dar concessão de um restaurante no Congresso. Não levaram em conta o currículo simples de um nordestino que, pobre, veio para o grande centro do sul onde começou a vida como caixeiro-viajante, numa trajetória impoluta.

Certamente desprezarão o igual caminho do conterrâneo que chegou à Presidência da República. Sem nada saber do que faziam seus companheiros, tentam arrastá-lo para o mar de lama.

Estará também à mercê da truculência da Justiça que cortou o fornecimento de quibe de um insuspeito cidadão para que ele confessasse suas contas no exterior, recheada de dinheiro certamente ganho numa carreira meteórica de empresário bem-sucedido.

Acabaram com a carreira de uma promotora de eventos que fornecia moças de fino trato para abrilhantar grandes festas na Capital Federal, sendo obrigada a entregar sua agenda de clientes à polícia, o que enriquecerá advogados especializados em divórcios.

Mas ao povo desarmado ainda sobra o futebol, onde ele xinga o juiz de ladrão para descarregar seu estress.

Cabisbaixo, o brasileiro sai agora dos estádios ciente de que tem razão.


* Stan O. Laurel, embora favorável ao desarmamento, é de opinião que os brasileiros devem pensar duas vezes antes de dar “sim” ou “não” no referendo. Democrata ferrenho, pondera que é truculência pura e simples proibir a comercialização ou fabricação de armas no Brasil, deixando milhares de desempregados e também milhares de bandidos em vantagem sobre todos.