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Um
dia desses, acordei filósofo. Acho que o espírito
de Sócrates (atenção, leitores do Sacolão,
não é aquele ex-jogador do Corinthians, não!)
baixou em mim ou, pelo menos, encostou. Ao contrário do
craque alvinegro, que adorava cerveja bem gelada, o filósofo
ateniense não gostava de beber. Por ironia do destino,
foi condenado a tomar cicuta, veneno poderoso que se usava na
época, e – pior de tudo – sem gelo.
Por isso, resolvi testar a sabedoria do meu mordomo James. Ele
entrou, como faz habitualmente, às oito horas, na biblioteca,
trazendo uma bandeja com o desjejum completo, que inclui dos famosos
ovos fritos com bacon ao café. Perguntei-lhe se tinha algo
a fazer em seguida. Ele me respondeu que teria de preparar o almoço.
Disse-lhe que não almoçaria em casa e que voltasse
à biblioteca, após recolher a louça do café,
porque eu desejava fazer-lhe algumas perguntas filosóficas.
Pôs a louça na bandeja, pediu licença e deu
meia volta em direção à cozinha. James é
discretíssimo. Apesar disso, notei um envergonhado ar de
satisfação em seu semblante.
Enquanto o aguardava, recuei no tempo para lembrar-me da “maiêutica”
socrática. Calma, leitor, não é palavrão,
não. Para o autor de “só sei que nada sei”,
ensinar qualquer coisa às pessoas comuns, em geral, escravos,
na época em que viveu, consistia em fazer-lhes uma série
de perguntas, encadeadas de tal forma que despertassem, em suas
memórias remotas, as respostas corretas.
A esse método, ele deu o nome de “maiêutica”,
que chegou até nós graças a Platão,
discípulo de Sócrates, uma vez que este não
deixou nada escrito. “Vamos ver”, disse para mim mesmo,
“se esse método funciona ainda hoje”.
Pouco depois, James estava sentado na frente de minha poltrona
preferida, exibindo-me aquele seu olhar de bovina sabedoria.
“Você sabe, James, que, no Brasil, costumam dizer
que nós, ingleses, somos os portugueses que deram certo”,
disse-lhe, dando início à conversação.
“Não sabia que eles eram assim tão perspicazes,
senhor”, respondeu, sem esconder certo ar de admiração.
“Isso é bom ou ruim para nós, senhor?”.
“Não tenho certeza, James. O que sei é que
tanto nós como eles tivemos os celtas como ancestrais comuns,
que navegamos pelos três oceanos, e que construímos
grandes impérios”.
“O nosso era bem maior em extensão territorial, senhor”.
“É verdade, James. Mas não podemos nos esquecer
de que eles chegaram bem antes do que nós ao Canadá
e à Austrália. Eles só não se estabeleceram
por lá por absoluta falta de gente”.
“A vastidão de nosso império nos fez dar grande
impulso à antropologia, senhor”. “De certa
forma, você tem razão, James. E isso talvez explique
o relativo sucesso da colonização inglesa em relação
à ibérica e à holandesa”.
“Mas não é esse o ponto, James. Temos algumas
coisas em comum com portugueses, espanhóis e holandeses.
Mas a pergunta é: quais são as carências comuns
que nós e os portugueses temos em relação
a outros povos?”.
James ficou pensativo durante alguns segundos. Depois, como se
estivesse pensando em voz alta, tentando ganhar tempo, disse:
“Acho que estamos bem representados em quase todas as áreas
do saber; em literatura e teatro, não ficamos devendo nada
a ninguém. Mas, em música e artes plásticas,
talvez nos faltem alguns grandes nomes, senhor”.
E não é que o Sócrates tinha razão!
Pedi a ele que citasse alguns compositores ingleses. Fez uma pausa
e arriscou: Haëndel e Henry Purcell. Tive de lembrá-lo
de que o primeiro era alemão, embora tenha vivido na corte
inglesa.
“James”, disse-lhe, olhando-o nos olhos, à
moda árabe, em tom de desafio, já que tal atitude
é muito mal vista por aqui, “diga o nome de algum
pintor inglês ou britânico comparável a qualquer
um dos impressionistas menos conhecidos”. Ele parou alguns
segundos e – eufórico por ter descoberto algum –
citou o nome de Turner.
“Ah!, o Turner, claro, aquele das marinhas!”
No instante seguinte, alguma coisa se passou no cérebro
do meu mordomo. Acabara de ter um ‘insight’. Alguma
coisa da qual jamais tivera consciência tornou-se repentinamente
clara para ele. Meio em transe ainda, ele gritou, em tom triunfal:
“Como diria Ricardo 3º, meu reino por uma Gioconda!”
*
Kenneth Goodson é filósofo e astrônomo
amador, brasilianista nas horas vagas e gastrônomo profissional.
É autor, dentre outros ensaios, de “O Oboé
dos Celtas” e “A Gioconda da Rainha Vitória”. |