Melhor fingir que nada se viu

Mary Ann, minha santa esposa, ficou lá em Porkville, Iowa, um tanto quanto aborrecida por eu estar no Brasil desde que começou a crise política.

Mas daqui não sairei enquanto não se der um fim a ela – na crise, não na minha santa esposa – ou ficar tudo na mesma. Mas permanecerei a postos, como bom jornalista e brasilianista que sou.

Tem ela estranhado que, – assim como todos meus leitores do Weekly News - se minha coluna era de ficção científica, agora é de humor, nos assuntos que escrevo sobre o Brasil.

Nem se precisa sair do quarto do hotel em Brasília. Basta sintonizar a TV Senado e se colhe material para uma boa coluna. Se considerada hilariante, que se danem.

Ninguém sabe de nada. Dez aviões como o do Presidente Lula poderiam ser comprados com o dinheiro que se deslocou de lá para cá em malas e malas pretas e de nada se sabe.

Personagens passam pelas Comissões Parlamentares de Inquérito aos borbotões:

. “O que tinha no envelope que estava comigo ao sair do banco? Eram exemplares antigos da revista Contigo que a mulher do meu amigo deputado havia emprestado para a mulher do gerente e pediu que eu fosse lá apanhar. Imagine se ela vai ficar desfalcada em sua coleção, excelência”.

“Dinheiro na cueca, senhor relator? Ora, o senhor não sabe da simpatia? Dinheiro em cueca traz muita sorte para quem o carrega. Além de sorte, mulheres e mais mulheres, já que a combinação de dinheiro com as partes baixas as atraem como moscas”.

“Se estive no hotel com o ministro? Ora, excelência, sou muito é homem. E se investigar vai ver que ficamos em quartos separados. Não pode confundir esse meu tique nervoso com piscadas para o “gato” que é o neto do senador Antonio Carlos Magalhães”.

“Portugal? Telefônica? Não, senhor senador. Fui a um show musical de nosso ministro. Nunca, vossa excelência, perderia um dueto do Dr. Gilberto Gil com o Roberto Leal”.

“Aquela mala preta que eu levava para a Câmara? Eu vendo sanduíches naturais que minha patroa faz para engordar o orçamento e que são muito disputados pelos deputados mais gordinhos que ainda não fizeram operação para reduzir o estômago, senador”.

“Sim, tinha sempre lá um carequinha que jogava reflexo na cara do ministro e que mudaram de lugar várias vezes. Eu reparava mais nas barbas dos companheiros, excelência”.

“As moças das festas no hotel? Jeany Mary Corner? Não eram estagiárias do Fome Zero fazendo coletas entre o pessoal do seminário político? Além do que, senhor senador, dei uma olhadinha e saí bem cedo”.

Correios? Ah, excelência, não se usam mais os correios. Agora é tudo e-mails. Ia sempre lá para comprar selos para a coleção de meu sobrinho”.

“Essa agora, senador! O que tem de mais levar minha tia paralítica, que me entregou fazendas e uma conta no exterior, para que eu a levasse todos os dias ao bingo?”

“Dinheiro sagrado e comete blasfêmia com essa sua pergunta capciosa, excelência. Ai de mim se não chegasse logo com a malas dos dízimos dos fiéis arrecadados até a tarde de segunda-feira. Parece que quer me ver ir para o inferno, não é?”

Para o olho da rua e para o inferno irei eu se mandar a coluna para o meu jornal com o que assisto na TV Senado.

Estou pensando em começar a escrever uma coluna sobre a pesca de trutas.


* Stan O. Laurel, religioso de sólidos alicerces morais, abomina a mentira. Contudo, após 15 dias assistindo à CPI pela televisão, vê suas convicções caindo por terra. E afirma: “Uma vez pesquei uma truta de 23 quilos; minha santa esposa é a grande beldade de Porkville, sou o maior brasilianista vivo e o governo brasileiro é exemplo de probidade”.