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Na
leitura semanal de jornais e revistas do Brasil, fiquei sabendo
que Lula não pretende seguir os exemplos de Getúlio
Vargas, de João Goulart e de Jânio Quadros. O único
espelho no qual ele ainda se reconhece é o de Juscelino
Kubitschek. Estrategicamente, o nome de Fernando Collor não
foi citado.
Estava pensando o que esse raciocínio esconde, quando meu
mordomo James entrou na biblioteca para me oferecer suco de laranja
e café. Em poucas palavras, tentei explicar-lhe o suicídio
de Vargas, o golpe militar contra Goulart e as renúncias
de Jânio e a de Collor.
Ele ouviu calmamente, mas respondeu que já havia lido o
assunto em uma reportagem especial da revista “The Economist”.
Ótimo, pensei comigo, assim fica mais fácil pedir-lhe
para decifrar a charada Lula e os demais. James é muito
bom nisso.
Ele me fitou com olhar meio perdido no vazio. Quando faz isso,
é sinal que seu cérebro está processando
as informações. Passaram-se alguns segundos, durante
os quais tive a nítida sensação de que seus
olhos me diziam: “Elementar, meu caro Goodson!”.
“As charadas”, respondeu-me, em tom professoral, “devem
ser decifradas por aquilo que elas não dizem, mas que apenas
sugerem”. Muito bem e daí? “Bem, vamos separar
a questão em partes, como fez nosso compatriota “Jack,
o Estripador”.
A primeira parte: não farei como Getúlio significa,
segundo James, duas coisas: se o preço a ser pago para
passar para a história for o suicídio, não
contem comigo; a segunda é que ele também gostaria
de ser lembrado como o “pai dos pobres”, o que, por
motivos óbvios, não vai acontecer.
“No futuro”, sentenciou meu mordomo, “talvez
Lula seja lembrado, no máximo, como o “padrasto dos
pobres”.
A alusão a João Goulart também teria, na
leitura de James, dois significados: o primeiro é a certeza
de que as elites não querem derrubá-lo, ao contrário
do que fizeram com o ex-presidente, em 1964; a segunda é
que Lula gostaria de, em quatro anos de mandato, ter dobrado o
valor do salário mínimo, coisa que Goulart fez,
um mês antes de ser deposto.
A lembrança de Jânio Quadros remete à de Collor,
já que ambos, por motivos diferentes, renunciaram. Lula,
segundo meu mordomo, dorme na esperança de sonhar com Getúlio,
sem o suicídio; com Goulart, sem a deposição;
e com Juscelino, sem Brasília. Mas acorda, sobressaltado,
em meio ao pesadelo, jogando paciência com Jânio e
Collor.
Quanto a Juscelino, observa James, ele é tudo o que Lula
gostaria de ser: fez Brasília, o que lhe deu um lugar na
história; terminou o mandato, calou seus adversários
e avançou cinqüenta anos em cinco.
Surpreso com as comparações feitas por James, perguntei-lhe
se eram dele ou se as tinha lido na “Economist”. A
resposta veio rápida: “as informações
estão no texto, mas os comentários e a interpretação,
ou seja, aquilo que não está escrito, mas apenas
insinuado, são, modestamente, de minha autoria”.
“Só me faltava essa”, pensei: um mordomo que
entende de lingüística.
Percebi que ele estava ansioso para concluir o assunto e quis
saber dele se todo aquele “imbróglio” iria
ou não terminar em pizza, como se diz, aí, no Brasil.
“É provável que tudo isso acabe como começou:
num frango com polenta dominical, em algum restaurante popular
de São Bernardo do Campo. Após a sobremesa, de goiabada
cascão com queijo, alguém vai pedir a palavra para
sugerir a criação do PT do B”, concluiu, James,
em tom de galhofa.
Qualquer dia desses acho que vou ter de demitir ou pelo menos
aposentar meu fiel mordomo.
*
Kenneth Goodson é brasilianista, gastrônomo
amador, enólogo profissional e criador da pizza de carne-seca,
com cobertura de farofa de abóbora. Para acompanhar a iguaria,
recomenda beber vinho “Sangue de Boi”, misturado com
tubaína, bem gelada. |