Crise traz de volta o
velho e útil sapateiro

Por Marina Ravanelli
Subeditora de Datas e Efemérides

O velho e útil sapateiro, que muitos acreditavam estar quase extinto no dia-a-dia das grandes cidades, expulso pelo progresso e pelos preços baixos oferecidos pelas indústrias e lojas de calçados, parece mais ativo que nunca, e experimentando novo “boom” em seu negócio. O motivo: o empobrecimento do povo, o alto preço dos calçados e a popularidade das sandálias, usadas, segundo estatísticas do setor, por 65% da população de baixo poder aquisitivo e até mesmo pela classe alta. Resultado: a solução é apelar ao sapateiro para consertar ou reformar sapatos velhos.

De acordo com a União dos Sapateiros e Coureiros Independentes de São Paulo (Uscisp), dos cerca de três mil sapateiros que havia no município dez anos atrás, restaram em 2003 pouco mais de 100. No começo deste ano, a entidade de classe já tinha registrado cerca de 600.

“Com esta crise, os salários cada vez mais insuficientes e o custo de vida subindo sempre, o jeito é voltar ao passado e ao bom e barato sapateiro”, diz Avelino Simionato, diretor da Uscisp.

Até deputado federal

Um sapateiro que conseguiu sobreviver à crise e agora afirma que os negócios nunca estiveram tão bons é Josias Penaforte, de 45 anos, cuja oficina, na zona leste voltou a ter uma clientela tão grande que ele foi obrigado a contratar três aprendizes para ajudá-lo.

“Dois anos atrás, eu mal conseguia ganhar a vida por causa da freguesia reduzida”, conta Josias. “Todo mundo preferia jogar fora o sapato usado e comprar um novo. Meia sola, reforma e algumas costuras eram coisa rara.Para sobreviver, comecei a fazer sandálias baratas e foi assim que agüentei o tranco”.

Hoje, com o povo novamente enfrentando uma crise econômica e vivendo a insegurança da vida política, muita gente é forçada a economizar e procurar os sapateiros para consertar ou reformar os calçados usados.Segundo Josias, muita gente ficaria surpresa com o nível econômico de alguns de seus novos fregueses.

“Um ator de novela muito conhecido, que gosta de cavalgar, já reformou a bota dele três vezes, até que ela não agüentou mais nem meia-sola. Uma famosa apresentadora de televisão traz sempre as bolsas pra consertar. E olha que não é gente sem dinheiro não”, ele afirma. Mas o que o deixou espantado mesmo foi um senhor de boa aparência, que trouxe outro dia três pares para botar sola inteira e para costurar.

“De cara, não percebi quem era”, afirma Josias, “mas quando ele voltou pra pegar os sapatos, vi que era um deputado federal desses que estão envolvidos no escândalo do mensalão. Aí já não entendi mais nada”.