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Sempre
que a mídia européia dá algum destaque à
corrupção aí no Brasil ou em qualquer outro
país da América Latina, meu telefone aqui, na bucólica
Suíça, não pára de tocar durante uns
dois ou três dias.
Na última semana de julho, por exemplo, recebi uns 20 telefonemas,
além de 50 e-mails, de pessoas (jornalistas, psicólogos,
sociólogos, antropólogos e leitores) interessadas
em mais detalhes sobre esse negócio do ‘mensalão’.
Brasil, PT, políticos e corrupção são
temas que têm dado muito Ibope por aqui. Mas é difícil
explicar a europeus como, de repente, o governo Lula passou do
‘Fome Zero’ para o ‘Honestidade Zero’.
A questão mais debatida é a seguinte: afinal, qual
é o Brasil real: o do funcionário do aeroporto de
Brasília, Francisco Cavalcanti, que devolveu os dez mil
dólares, esquecidos por um distraído turista suíço,
no wc local; ou o dos Delúbios, Valérios e Dirceus?
A alguns intelectuais, costumo lembrar – a propósito
da América Ibérica – frase do escritor peruano
Mario Vargas Llosa. “Por estas paragens”, diz ele,
referindo-se ao subcontinente de expressão espanhola e
portuguesa, “é impossível separar a realidade
da ficção”.
Às vezes, cansado de explicações sofisticadas,
pergunto se eles sabem qual é o esporte mais praticado
por brasileiros, argentinos, paraguaios, uruguaios e chilenos
e demais vizinhos. A resposta que eles dão é sempre
a mesma: “É o futebol”, apostam.
Santa ingenuidade! Pelo que sei, para os brasileiros, bem antes
do popular esporte bretão, do feijão maravilha,
da mulata de olhos verdes, e das “sanseis” (netas
e bisnetas de imigrantes japoneses), já de bumbuns empinados
e de cabelos ruivos, vêm, disparadas, na frente, a arte
de roubar, fraudar, desviar dinheiro público e de corromper.
Depois delas, e antes do ludopédio, como diria o ex-presidente
Jânio Quadros, do feijão e da mulata, estão
a cara-de-pau (Troféu Óleo de Peroba) e o cinismo
com que os acusados de corrupção se comportam. Eles
sabem – como o juiz Lalau, por exemplo – que a pena
máxima a que estão sujeitos é a prisão
domiciliar.
Mas, voltando ao ‘mensalão’, ao governo Collor
(o PC Faria, mas o Delúbio fez), ao juiz Lalau (tudo o
que fiz de errado foi modernizar a Justiça do Trabalho),
lembro-me de um episódio, ocorrido na década de
70, que talvez explique tudo isso.
Naquela época, eu era correspondente do “Corriere
della Sera” em São Paulo. Na Itália, onde
fora passar um período de férias com a família,
meu editor pediu-me que, antes de voltar ao Brasil, fizesse algumas
reportagens sobre Portugal, que na época ensaiava uma abertura
política, liderada por Marcelo Caetano, sucessor do ditador
Oliveira Salazar.
Lá fui eu até à terrinha para verificar se
de fato aquele país era, como reza a lenda, “um jardim
à beira-mar plantado”. Em duas semanas, conversei
com autoridades de diversas áreas, oposicionistas, artistas,
intelectuais e líderes sindicais.
É bom lembrar que o período entre 1972 e 1975 foi
bastante agitado em Portugal. Discutia-se uma saída negociada
para a guerra colonial em Angola e Moçambique, sem o que
o sonho de entrar para a União Européia seria impossível.
O ex-Condado Portucalense mantivera-se, ao longo de cinco séculos,
de costas e alheio ao que acontecia na Europa. Chegara, finalmente,
a hora de incluir a identidade lusitana, feita além-mar,
no balaio comum das várias caras da Europa unida.
O mar já não era mais sinônimo de modernidade.
A bússola do futuro apontava agora para a Europa. Mas os
descendentes de dom João 6º estavam divididos em relação
à pressa para retornar às origens.
Herdeiros e viúvas de Salazar, liderados por Marcelo Caetano,
queriam ir devagar com o andor. A outra facção,
sob a influência de militares progressistas, contrários
à guerra colonial, como Vasco Gonçalves e Otelo
Saraiva, pretendiam acelerar o processo, o que acabou acontecendo,
em abril de 1975, com a Revolução dos Cravos.
Para um turista, a melhor e mais rápida forma de se conhecer
um país e seu povo é conversar com taxistas, garçons
e funcionários de hotéis. Claro que é necessário
ter certo domínio da língua. Além disso,
pedir informações a pessoas anônimas, em locais
públicos, também ajuda.
Sem a opinião, em geral sincera, de tais pessoas, quaisquer
depoimentos por mais interessantes que sejam transformam-se em
pedantes tratados do óbvio ululante, como diria Nélson
Rodrigues.
O motorista que me levou do aeroporto de Lisboa até o hotel,
não muito distante do centro histórico da cidade,
foi, portanto, o meu primeiro e principal entrevistado. Durante
o trajeto, percebendo que eu falava e – mais importante
ainda - entendia o idioma local, Américo D’Almeida
(era esse o seu nome) foi se soltando.
Com seu jeitão desconfiado de camponês do Minho,
se não me engano, um dos afluentes do Tejo, que corta Lisboa,
em poucas palavras, resumiu a situação da terrinha.
“Patrício”, disse, em tom informal; em seguida,
fez uma pequena pausa e arrematou, indignado: “Isto aqui
é uma terra de ladrões”.
Como se deduz pelo título deste artigo, a vocação
para o roubo parece ter sido inserida, sabe-se lá por quem,
na programação genética (DNA) do ser humano.
Se Cícero, não o padre, mas o tribuno romano fosse
vivo, com certeza, teria de reescrever o final da mais famosa
de suas catilinárias (série de discursos, feitos
no Senado de Roma, contra um agitador populista da época,
chamado Catilina). Quaisquer semelhanças com personagens
atuais são meras coincidências.
O novo discurso de Cícero ficaria mais ou menos assim:
“Até quando, Delúbios, Valérios e Dirceus
e... (espaço reservado para o leitor incluir mais nomes),
abusarão da nossa paciência?”
Quando esse “imbróglio” todo tiver passado,
imagino Lula, daqui a uns dois ou três meses, diante do
espelho, em casa, usando chapéu à moda de Napoleão,
com a mão direita enfiada no paletó, dizendo: “Ser
ou não ser, eis a questão”.
Entediado, talvez ele resolva se vingar de seus correligionários.
À maneira de Luís 15, rodopiando sobre os calcanhares
até completar uma volta em torno de si mesmo. Aí,
então, diante de um eleitorado imaginário, dirá,
com os braços abertos, e em tom solene: “Depois de
mim, o Delúbio!”
*
Werner Ghestaldo é jornalista, apátrida,
radicado em Lugano, na Suíça. Sobre o mesmo tema,
já publicou alguns artigos em periódicos europeus,
dentre os quais: “Brasil, da Calmaria (de 1500) ao Dilúvio
(de 2005)”, “Lula: Paz, Amor e Mensalão”
e “Luís 15 no Planalto”. |