Fuja, descobriram tudo!

Eu deveria pegar minha Smith-Corona 1956, arrumar as malas e fugir imediatamente quando li o e-mail que a recepção do hotel em Brasília me entregou. Mas a recepcionista me acalmou dizendo que era um spam mandado aleatoriamente para todos os militantes do PT e que, certamente, deveria ter sido um engano.

Foi um engano: “fujam, descobriram tudo” não é coisa que deva ser mandada a um senhor jornalista estrangeiro que escreve sobre o Brasil, com uma coluna fixa no “Weekly News”, em Porkville, Iowa, Estados Unidos.

Poderia ser uma brincadeira do brasilianista inglês Kenneth Goodson, que faz pilhéria sobre meu comportamento exemplar, não cedendo à tentação de cair nos braços e seios tenros de mocinhas brasileiras e mantendo-me fiel à minha santa esposa Mary Ann, nos seus 135 .

Também não fugiria, porque um brasilianista deve manter-se no olho do furacão e delúbios, quero dizer, dilúvios dos acontecimentos. E, pelo andar da Kombi 1963 verde oliva, que me carrega para todos os cantos, tão cedo não sairei do país.

Mesmo porque, nem se precisa sair do hotel para saber das coisas. As tardes de Brasília se parecem com tardes da Copa do Mundo de Futebol, quando todo o país pára, com os olhos fixos na TV Senado.

Frente à uma CPI, os envolvidos se colocam atrás de um microfone e nada sabem. Com a promoção de milhagem que as companhias aéreas poderiam fornecer para as malas pretas com dinheiro, poderia se viajar de graça por muitos anos por esse Brasil afora.

Há excessos, eu concordo. Com o perigo de assaltos, nada tinham que deter um sujeito que se protegeu colocando seu dinheiro, ganho com venda de verduras, na cueca. Uma coisa leva à outra e, em nome da decência, a etiqueta da roupa íntima levou a polícia federal a invadir uma loja de grifes milionárias, levando os proprietários à prisão, causando uma revoada de peruas e outros galináceos.

Também não poderiam impedir de levantar vôo aviões abarrotados de dízimos santos recolhidos em todos os cantos do país. É assim que qualquer igreja deve se manter desde os tempos do Papa Bento I, que não comprou rádios e emissoras de televisão apenas porque ainda não existiam.

O presidente, pasmo, não acredita no que seus olhos estão vendo. Ou melhor, não estão vendo. Sabe assim, por cima, que seu partido faliu porque emprestou dinheiro de um sujeito que criava vacas. Vez por outra fazia uma propaganda para o governo e, por esse seu gesto, acabou envolvido, levando de roldão sua santa mulher que recebia 65 mil reais por mês para cuidar do lar e criar uns cavalinhos.

Pior ainda, foi traído por sua secretária que – ainda em negociações – poderá ser vista em uma revista de mulher pelada, sentado no banheiro em meio a um destempero intestinal.

Um cantor lírico amador de olho roxo – vez por outra deputado – foi quem começou tudo isso, colocando os colegas em polvorosa, denunciando recebimento de módicas mesadas para aprovar projetos do governo. Com fome de justiça e decência – já que pouco pode comer por ter reduzido o estômago – fez rolar cabeças de gabinetes do Palácio do Planalto, ministérios e estatais.

O partido do governo, que também vive de dízimos como as igrejas, trocou seus santos.

Uma nova cartilha está sendo impressa com poucas, mas eficientes, modificações:

-Estão extintas, de ora em diante, esposas, ex-esposas e secretárias e motoristas de qualquer membro do partido.

- Malas pretas estão proibidas no recolhimento de dízimos.

- Evitar pedir dinheiro emprestado de verdureiros e criadores de vacas.

- Informar ao Presidente da República apenas as novas contratações do Corinthians.

- Tirar o sofá da sala.


* Stan O. Laurel, embora especializado em brasilianismo, há décadas percorre o mundo, escrevendo sobre qualquer país que ofereça temas para suas colunas. Com vasta experiência internacional, afirma, parodiando aquele ditado sobre as mães: “Brasil tem um só. E já é demais”.