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“The
Economist”, em sua edição de julho, traz extenso
artigo sobre o Brasil. Nele, o autor prevê que a economia
não resistirá por muito tempo à avassaladora
onda de denúncias do deputado Roberto Washington, dando
conta da existência do ‘mensalão’, uma
espécie de ‘pro labore’, pago a mais de um
terço dos parlamentares da Câmara, para aprovar tudo
o que é de interesse do Planalto.
O deputado-delator, que adora cantarolar árias de óperas
famosas, além de clássicos da MPB, diz ter a lista
de todos os felizardos colegas de trabalho incluídos no
esquema de propina mensal.
Não vou me alongar sobre esse assunto até porque
vocês aí no Brasil têm muito mais informações
do que eu, ilhado entre a minha biblioteca e pubs das redondezas,
desde os recentes atentados terroristas, ocorridos no metrô
londrino.
Comentei as denúncias com meu mordomo James, chegado a
assuntos esotéricos. Com a cara mais cínica do mundo
ele me disse que tudo isso que está acontecendo aí
no Brasil já havia sido previsto, em 2002, antes da eleição
de Lula, por uma vidente conhecida como “Mãe Ingá”.
Ignorei o assunto. Mas no dia seguinte, enquanto servia o desjejum,
revelou-me, como se fosse a coisa mais normal do mundo, que há
dois meses objetos voadores não-identificados – os
famosos óvnis – sobrevoam diariamente o Palácio
do Planalto e o Lago Paranoá, residência preferida
dos figurões de Brasília.
Ao saborear o primeiro gole de “irish coffee” (mistura
de café expresso, chantilly e licor de uísque),
disse-lhe que estava lendo muitos artigos de ficção
científica e de ufologia. Mas ele me garantiu que a fonte
de tais informações era absolutamente fidedigna.
“Trata-se de um controlador de vôos que trabalha no
aeroporto internacional de Brasília”, disse-me James,
assumindo repentinamente certo ar de preto velho. Segundo meu
mordomo, esse informante teria feito um relato detalhado e minucioso
desses estranhos fenômenos, em recente evento internacional
de pilotos de aviação civil.
“Você está precisando de férias, James”,
disse-lhe. “Que tal finalmente ir visitar aquela sua irmã
que mora na Austrália?”, sugeri. “A idéia
não é má, Mr. Goodson”, respondeu-me,
em tom irônico. “Só que minha irmã,
que não vejo faz mais de trinta anos, vive no Canadá”.
Bem, mas voltemos aos óvnis. Meu mordomo insiste no tema
e diz que, em última instância, sua fonte é
o Cindacta, sistema de monitoração eletrônica
e por radar do espaço aéreo brasileiro.
Tive de me conter para não dar uma gargalhada. “Você
está insinuando que o Cindacta detectou óvnis sobrevoando
o Planalto?” “Sim, senhor, é isso mesmo. E
o pior: quando surgem nas telas eletrônicas, captados por
radares, mudam de forma e de cor. Ou seja, num dia são
brancos, no outro são amarelos; ora se fazem passar por
morcegos, ora por pássaros, ora por tubérculos”.
Caí da cadeira, após dois minutos de risos convulsivos.
Ao me levantar, lembrei-me, de repente, de famoso humorista brasileiro,
conhecido como Barão de Itararé, na verdade Apparício
Torelly, editor de “A Manha”, que gostava de dizer,
nas horas de grandes crises: “Há algo estranho no
ar além dos aviões de carreira”.
Para minha surpresa, James ficou muito interessado no autor do
bordão, o que significa que minha biblioteca logo, logo
será alvo da insaciável bisbilhotice do meu mordomo.
Tudo bem. É o preço que nós, “scholars”,
pagamos para educar a plebe.
Resolvi então testar o conhecimento de James sobre tais
fenômenos. “Bem, se isso tudo que você me diz
estiver acontecendo lá em Brasília o povão
já deve ter dado a sua versão para explicá-los,
não é verdade?”
“Claro
que sim, mister Goodson!”
Fingi
interesse, à moda de Fernando Pessoa, “o poeta é
um fingidor” (...), para que ele me contasse o resto da
história. “O senhor não vai acreditar”,
confidenciou-me James, “mas eu guardei algumas fotos desses
objetos voadores. Elas foram tiradas por um sobrinho, de nome
Bob Huke, ex-fotógrafo de cinema, que hoje curte sua aposentadoria
do Reino Unido, lá no Brasil”.
Passaram-se alguns minutos para que meu mordomo voltasse com as
fotos. As mais nítidas mostravam o Palácio do Planalto
coberto por uma revoada de pássaros escuros, deslocando-se
de oeste para leste. Em sentido contrário, outra revoada
de tubérculos voadores, alguns brancos, outros amarelados,
parecendo nabos e cenouras voadores.
Outras fotos mostravam esses mesmos objetos em vôos rasantes
ao redor do Lago Paranoá. O curioso é que alguns
pareciam ter saído de dentro das águas, ainda sem
asas; à medida que ganhavam altura, enormes asas pareciam
dar-lhes sustentação aerodinâmica.
Fiquei estarrecido. Confesso nunca ter visto nada igual.
Quis saber de James os nomes populares desses estranhos objetos.
“Alguns são chamados de ‘aeronabos’;
aqueles que se assemelham a aves são conhecidos como ‘passaralhos’;
os de cor amarelada são as ‘cenouras besuntadas’
e os avermelhados, mais raros, são os ‘rabanetes
assassinos’”, confidenciou-me, envergonhado, meu fiel
mordomo.
Passei uns cinco minutos, tentando, sem sucesso, interromper ondas
crescentemente mais barulhentas de gargalhadas, já exausto
de tanto rir, e com dores no diafragma, sem qualquer controle
sobre a barriga, que não parava de tremer.
Tive de me levantar, ir ao banheiro, lavar o rosto com água
fria. De volta à biblioteca, evitei olhar diretamente para
James, caso contrário, seria acometido por nova onda de
riso. Pigarreei, como que limpando a garganta, e consegui –
confesso que a muito custo -, fingindo seriedade, perguntar-lhe:
“Por que, afinal, esses objetos só sobrevoam o Planalto
e o Lago Paranoá?”
“Então,
o senhor não sabe?”
“Não,
não sei de nada, James”, respondi, sentindo-me, de
repente, como o marido traído, que sempre é o último
a saber.
“É público”, pontificou James, com ar
professoral, “que Brasília é uma cidade que
respira misticismo. Lá, existem centenas de seitas que
fazem contatos periódicos com seres extraterrestres, mais
evoluídos do que os terráqueos, para construir conjuntamente
a sociedade do futuro”.
Cansados de tanta corrupção, impunidade e cinismo
generalizados, segundo James, esses etês do bem teriam resolvido
dar uma mãozinha aos brasileiros para expor ao ridículo
e castigar exemplarmente os corruptos, a começar pelos
políticos.
Se as profecias de “Mãe Ingá” se realizarem,
conclui, triunfal, meu sábio mordomo, ‘passaralhos’,
‘aeronabos’ e tubérculos voadores em geral
transformar-se-ão cada vez mais em perseguidores implacáveis
de corruptos, ladrões e prevaricadores.
Conclusão:
até os etês estão contra o PT.
*
Kenneth Goodson é
brasilianista,
Ph.D. em antropologia urbana por Oxford, e autor, dentre outros
ensaios, de “Tratado Geral dos ‘Aeronabos’”,
“O Sertão Já Virou Mar de Lama” e “Passaralhos,
os Justiceiros do Além”. |