Álbion brilha no céu europeu

A estrela Álbion, chamada de “a pérfida”, por astrônomos franceses, brilha intensamente no céu europeu. Nesta época do ano, início do verão, ao cair da tarde, olhando-se a Norte-Noroeste, de qualquer ponto da Europa, avista-se, a olho nu, na constelação do Escorpião, “a pérfida Álbion”, que, com seu brilho intenso, ofusca todas as demais estrelas e constelações.

Em meados de junho, falando ao Parlamento Europeu, na cidade de Estrasburgo, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, mais conhecido por seus conterrâneos como “o poodle de Bush”, aconselhou o presidente francês Jacques Chirac a “olhar mais para o mundo e menos para as vacas francesas”.

Blair referia-se aos generosos subsídios, dados pelo governo francês a seus agricultores, em flagrante contraste com os demais países europeus, cada vez mais industrializados.

Foi a gota d´água! No dia seguinte, a mídia francesa saiu às ruas com manchetes do tipo “A pérfida Álbion ganha mais uma” ou “Waterloo em Estrasburgo”, numa referência à célebre batalha, travada, em 1815, na Bélgica, e perdida por tropas francesas, comandadas por Napoleão.

A ironia de Blair soou como afronta numa França ainda traumatizada pela rejeição à proposta de constituição única para a União Européia (UE), derrota reforçada pelos holandeses, que, uma semana depois dos franceses, também negaram o “sim” à iniciativa.

Para refrescar a memória dos leitores do “Sacolão”: a idéia de adotar uma constituição única para os atuais 25 países membros da UE foi defendida, com unhas e dentes, pela França. E derrotada, em plebiscito, pelos próprios eleitores franceses.

Na verdade, a grande vitória inglesa ocorreu em 2003, quando ela conseguiu manter-se na UE, sem aderir à moeda única. Desde então, duas divisas - o euro e a libra esterlina – dividem a comunidade.

Ou a Inglaterra permanecia na UE, abrindo mão de sua moeda, ou mantinha a libra esterlina e saía da comunidade. Admitida a exceção, o sonho de unir o continente sob uma só constituição e uma só moeda já havia sido arranhado.

Portanto, ao contrário do que aconteceu em Waterloo, os britânicos ganharam a batalha sem disparar um único tiro. Foi na base da diplomacia. Pior de tudo é que o “conselho” de Blair foi dado às vésperas de a Inglaterra assumir, em 1º de julho, a presidência rotativa da EU, por seis meses. Convenhamos, foi demais para os gauleses.

Em resposta às manchetes dos jornais franceses, a mídia inglesa deu o troco. “Não ao imperador Carlos Magno” (alusão a Chirac), “A Ilha derrota o Continente” e a “Libra vence o euro” foram algumas das respostas dadas na “Pérfida Álbion”.

Em “Les Invalides”, onde fica o mausoléu com os restos mortais de Napoleão, o imperador teve um acesso de raiva, após ler os jornais e desabafou: “Esses comedores de escargots raciocinam com os testículos”.

De Gaulle, se fosse vivo, com certeza, teria convocado a OAS (organização paramilitar contrária à independência da Argélia, muito atuante nas décadas de 60 e 70 do século passado) para dinamitar o túnel sob o Canal da Mancha.

Joana D’Arc, a virgem de Orleans (sem Bragança), indignada com as bravatas de Blair, está tentando convencer São Pedro a mandar um “tsunami”, localizado no Mar do Norte, para arrasar a Ilha, poupando, obviamente, a Irlanda.

Indiferente à ira sagrada dos heróis gauleses, no Museu do Louvre, a Vitória de Samotrácia, uma das esculturas mais valiosas do departamento de arte greco-romana, assume o sorriso de Mona Lisa aos olhos dos turistas estrangeiros.

Em Zurique, centro financeiro da Suíça, avarentos locais e estrangeiros já sonham com polpudos lucros, à espera de um provável “naufrágio” do euro.

Se isso vier a ocorrer, com ou sem a volta de todas ou de algumas das antigas moedas nacionais (marco alemão, franco francês, florim holandês, lira italiana e coroa sueca, dentre outras), o franco suíço voltará a ser a principal moeda de referência e de poupança dos ricos.

Enquanto ingleses e franceses se digladiavam, em tribunas de vários organismos da UE, totalmente alheios, brasileiros, residentes nas principais capitais européias, resolveram festejar Santo Antônio, São João e São Pedro, como se estivessem em Caruaru ou em Campina Grande.

Nos dias 12, 23 e 28 de junho, vésperas dos dias de Santo Antônio, São João e São Pedro, algumas praças de Paris, Londres, Roma, Madrid e Lisboa transformaram-se em quermesses ao ar livre, com barracas vendendo quentão, pinhão, pipoca, amendoim, vinho quente, batata doce, curau, pamonha etc.

Mulheres com vestidos de chita, homens com chapéus de palha, e tome sanfona, triângulo, zabumba, banda de pífaros, casamento na roça, dança de quadrilha, fogos de artifício e cenas de folclore explícito.

Sem entender nada, multidões lotaram as praças, na vã esperança de assistir a algum desfile carnavalesco, com mulatas quase em pelo. Em vez disso, mulheres com duas ou três saias e calças compridas por baixo. Não se esqueça, leitor, que junho no hemisfério Norte é verão.

Apesar da decepção, europeus aderiram à festa, com alegria, encheram a cara de quentão e caíram no forró.

No centro das praças, montaram-se alguns paus-de-sebo. O leitor pode imaginar o vexame dado por romanos, parisienses, londrinos, madrilenhos e lisboetas, tentando subir no pau-de-sebo, completamente bêbados.

Precavidos, os brasileiros deixaram a bebida para depois. Comeram pouco antes de escalar o pau-de-sebo. O esforço valeu a pena para os poucos obstinados que conseguiram chegar ao topo. Lá, havia malas cheias de dinheiro.

Estava lançada a versão européia do “mensalão” junino.


* Werner Ghestaldo é jornalista apátrida, radicado em Lugano, na Suíça. Foi correspondente de periódicos italianos em São Paulo, Cidade do México e em Nova York. É autor dos ensaios “O Astrônomo de Santa Helena”, “O Sorriso do Poodle” e “O Anão do Eliseu”.