Mala preta

Aos gritos de “É ele!”, fui arrastado por dois brutamontes para uma sala reservada do aeroporto de Brasília, quando acabava de desembarcar.

“O que tem nessa mala preta?”, perguntaram.

“Minha Smith-Corona 1956”, respondi de pronto.

“O que é uma Smith-Corona 1956?”, repetiram.

“É minha máquina de escrever”, disse.

Riram, riram e riram mais, abrindo a maleta. Ameaçaram me enquadrar como contrabandista de antiguidades mas deixaram que eu me fosse.

Tomando um café no bar do aeroporto, notei que ninguém carregava uma mala preta. Marrom e verde eram as cores predominantes. Um careca baixinho, meio que rebolando, se ousava numa maleta vermelha.

A caminho do hotel contei, em muitas latas de lixo, centenas de malas pretas.

Pensei em perigo radiativo, contrabando de urânio enriquecido e bifes contaminados com a doença da vaca louca. Não me passou pela cabeça, ocupada que estava com o próximo campeonato de pesca de trutas, que poderia estar ali o próximo assunto para minha coluna no Weekly News, jornal de Porkville, Iowa, onde atuo como brasilianista.
Fiquei mais alerta quando, ligando a televisão no quarto do hotel, ouvi que o noticiário político a seguir não era recomendado para menores de 18 anos.

Fui me inteirando, assim, do que estava acontecendo. Retirei a Smith-Corona 1956 de sua maleta preta e comecei a escrever a coluna, pensando como um brasilianista americano.

Houve o boato de um delúbio – uma espécie de tsumani, presumi.

Esse fenômeno levava até à praia da Câmara dos Deputados malas pretas em suas ondas gigantescas. Alguns curiosos, inadvertidamente, as abriam e ficavam ricos de um dia para o outro.

O maremoto começava em Minas, inundava os correios de Brasília e, pelo esgoto, chegava à Câmara dos Deputados. Pegava a maleta quem quisesse, largada assim, sem mais nem menos. “O que é achado não é dado”, berrava um deputado na televisão.

Um publicitário mineiro foi atingido por uma dessas ondas gigantescas quando ia comprar vacas. Ficou surpreendido quando soube que, milagrosamente, sua maleta foi achada em Brasília, com mais de 20 milhões de reais.

O Senado achou que tinha coisa aí. Um deputado denunciou que essas marolas saíam do gabinete vizinho do Presidente Lula, que nada ouvia nem sabia.

Comissões parlamentares de inquéritos foram instaladas. Ex-secretárias surgiram do nada. Deduzi que essas ondas levavam também laranjas e comecei a ficar sem entender mais nada.
Como nenhum leitor meu de Porkville acredita no que escrevo, resolvi não explicar muito, já que nem eu entendo as coisas que acontecem no Brasil.


* Stan O. Laurel, jornalista e escritor há 40 anos e brasilianista há 16, já passou por inúmeros perigos em suas andanças pelo mundo, em busca de notícias e reportagens. Mas conta que o clima no Brasil anda carregado como nunca viu. Qualquer um usando uma mala preta é suspeito de corrupção. Por isso, decidiu comprar uma nova mala, vermelha, para sua Smith-Corona 56, da qual, contudo, não abre mão.