Sonho europeu em xeque

O euro, a moeda única da União Européia, pode acabar com o sonho de um continente unificado. Tudo parecia ir às mil maravilhas, quando, em 2003, as divisas nacionais (franco francês, marco alemão, lira italiana, florim holandês, coroa sueca, dracma grego, dentre outras) foram aposentadas, com uma certa – hoje isso é claro – afoiteza.

O resultado é que, atualmente, após as duas derrotas seguidas, impostas à proposta de constituição única européia, pela maioria dos eleitores franceses e holandeses, de Norte a Sul da Europa, só se fala na volta das antigas moedas nacionais.

Essa conclusão não é minha; é do meu mordomo James.

Estava, na minha biblioteca, pensando em fazer meu artigo mensal para o “Sacolão” exatamente sobre esse tema, quando, de repente, ouço gemidos e gritinhos femininos, altamente sensuais. Olho para a tevê e vejo a tenista russa, Maria Sharapova, no esplendor dos seus 18 aninhos. Fiquei paralisado.

Ela disputava uma de suas partidas, em Wimbledon, e eu, vendo-a correr de um lado para outro da quadra, balançando o saiote, só conseguia imaginar uma coisa: como seriam seus gemidos no ato amoroso.

Foi aí que meu mordomo James me acordou do devaneio, com o abominável e inoportuno – naquele instante, é claro – chá das cinco.

Naquele exato momento, percebi, fingindo desinteresse, que o juiz fazia gestos e esbravejava com a tenista russa. Não entendi nada, mas meu mordomo, então, calmamente, me explicou que, na opinião do árbitro, os gemidos da russinha desconcentravam a adversária.

Tive que me conter para não soltar um palavrão.

A partir daí, resolvi ignorar a presença do meu mordomo, servindo-me, eu mesmo, e, mecanicamente, do chá.

Calculava a intensidade e a variedade dos gemidos da sensacional russa na hora do orgasmo. Ainda mais, quando sabemos que as mulheres, segundo revelaram, recentemente, cientistas holandeses, simplesmente “desligam” o cérebro na hora do gozo.

Sinceramente, eu já desconfiava disso. Aliás, conheço algumas mulheres que simplesmente “desligam” o cérebro para qualquer coisa.

Imaginei que James se retiraria logo, como faz habitualmente. Em vez disso, resolveu puxar conversa. Conformado, tomei mais uma xícara, enquanto aguardava a inevitável pergunta.

“Mister Goodson”, disse, certo de ter interrompido alguma coisa, mas sem saber exatamente o que; “antes do euro, a libra valia mais do que o marco, o franco, a lira, o florim, além das demais moedas, não é verdade?”

“Sim”, respondi, “e daí?”

“Acontece que para ter uma moeda forte em relação ao dólar e à libra”, argumentou James, com ar de economista argentino, “o Banco Central Europeu, que passou a controlar a emissão e a circulação da nova moeda, o euro, teve de nivelar o custo de vida por cima, ou seja, adotou o marco alemão e o nível de renda, vigente na Alemanha, como padrão para todo o continente, certo?”

Confesso ter ficado impressionado com a clareza de raciocínio do meu mordomo, o que só aumentou minhas suspeitas de que ele costuma fazer freqüentes incursões à minha biblioteca. Resolvi, então, estimulá-lo: “Continue, James”.

“Imaginemos, por exemplo”, prosseguiu, agora já assumindo o ar de um ‘scholar’ de Harvard, “que uma cerveja custasse, na Alemanha, antes do euro, um marco”.

“Obviamente, essa mesma cerveja tinha um preço muito menor na Grécia, em Portugal ou na Espanha, porque o padrão de vida desses países era bem inferior ao da Alemanha, não é verdade?”, argumentou, à espera da minha concordância.

“Ora”, concluiu, “pouco tempo após a adoção do euro, a mesma cerveja, que custava um marco na Alemanha, e 20 centavos (em moedas locais) de marcos, em Portugal, na Espanha e na Grécia, passou a custar um euro, tanto em Estocolmo, na Suécia, ou em Oslo, na Noruega, como em Lisboa, Madrid ou Atenas”.

“A conclusão disso é simples: os cidadãos europeus mais pobres (portugueses, espanhóis, gregos, poloneses e eslovenos) estão pagando mais do que os mais ricos (suecos, alemães, noruegueses e holandeses) pela mesma cerveja. Ou, alternativamente, estão bebendo menos do que seus afortunados compatriotas mais ricos”.

James olhou-me, agora disfarçado de Sherlock Holmes, com aquele chapeuzinho ridículo, parecendo dizer-me: “Elementar, meu caro Goodson!”

“Brilhante, James!”, disse-lhe, entusiasmado, após a sua sagaz dedução. “Qualquer dias desses, vou convidá-lo para fazer uma palestra lá, em Oxford”.

James começou a recolher o bule de chá, a xícara e o açucareiro, colocando-os em cima de uma travessa prateada, quando, só para provocá-lo, quis saber dele o que achava da tenista russa.

Ele pensou alguns segundos antes de responder. “Ela é linda, sensual e provocante. É a Brigitte Bardot do século 21”.

“A francesinha”, acrescentou, com leve ar nostálgico, “enlouqueceu a nossa geração, com aquele seu jeito de noviça rebelde, recém-fugida de um convento, ansiosa por, digamos assim, conhecer o mundo”.

“E a tenista russa?”, insisti. “Ela mata as mulheres de inveja e os homens de tesão”.

E, em seguida, concluiu: “Infelizmente, mister Goodson, eu – ele gostaria de ter dito nós, mas a reverência obrigou-o a usar o singular majestático – já atingi a era dos metais, que é irreversível”.

“Que história é essa de era dos metais, James?”

A resposta veio lenta e acompanhada por gestos bastante sugestivos. “Prata na cabeça, ouro na boca, chumbo na frente e ferro atrás”.


* Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia urbana por Oxford, e autor de diversos ensaios, dentre os quais: “Brigitte Bardot, a Noviça que Todos Desejaram”, “Loira, Burra e Tenista” e “As Russas Gemem e a Caravana Passa”.