Bem longe das
aberrações de Hollywood

Enviado especial a Ulan Bator

Se as engrenagens dominadoras de Hollywood permitissem, talentos do mundo inteiro encheriam as telas de filmes excepcionais, como os americanos nunca viram e nunca serão capazes de produzir. Essa reflexão me ocorreu nesta bela e distante capital da Mongólia, onde se realiza o revolucionário e independente Festival de Futuros Gênios do Cinema.

Em que outro local seria possível reunir o supra-sumo de jovens, irrequietos e avançados cineastas de 87 nações? Em que outro país conseguiriam juntar cerca de 300 filmes, na maior maratona cinematográfica que o mundo já viu? E o mais importante: do total, pelo menos 270 filmes são de nível superior e muitos verdadeiras obras-primas. Cheguei aqui faz seis dias e consegui assistir a nada menos que 50 deles, todos, impecáveis em forma, conteúdo, vibrantes exemplos de cineastas que, na maioria, ainda não chegaram aos 30 anos, com a única exceção do gênio indonésio Ubi Asam, que em 1971 espantou o mundo com sua trilogia sobre os feridos da guerra, chamada “Aris”. Pois é este gigante da sétima arte que, aos 85 anos, volta mais jovem e revolucionário que nunca, com a continuação intitulada “Aris 2”. Quem pensou que os filmes de 71 eram magistrais e definitivos, tem de ver o que Asam alcançou com este. Ainda estou sob o impacto da obra e espero comentá-la em detalhes na próxima coluna.

Gostei muito também de um jovem talento romeno de 17 anos, Fluture Negru, e sua comédia de costumes “Obraz Uscat” (ou Amor Sem Fim Num Mundo de Cínicos e Degradados, em tradução livre), pequena obra-prima e uma fina e elegante ironia sobre as decadentes e aborrecidas ficções científicas de Hollywood, tipo “Guerra dos Mundos”, “Matrix” e outras aberrações.

Peço aos leitores, aqueles de paladar refinado e exclusivo, que não percam as próximas colunas minhas, pois pretendo comentar em detalhe pelo menos 100 filmes do festival. Encerrando, fica aqui uma reflexão: algo está muito errado com o cinema atual, notadamente o de Hollywood, pois precisei viajar milhares de quilômetros para assistir a grandes filmes.