Ervilhas cósmicas

A humanidade deve muito do seu avanço – arriscaria dizer que quase tudo – a xeretas, curiosos mórbidos e, sobretudo, a famosos “voyeurs”, de estrelas, casos de Galileu, Cassini, e de tantos outros astrônomos; e de ervilhas, caso genial e até agora único, de Mendel, o pai da genética moderna.

Essa constatação óbvia e, ao mesmo tempo, surpreendente, consta de um estudo, realizado em Berna, na Suíça, por um grupo de universitários, que resolveu classificar os cem maiores cientistas, cujas obras e experiências mais moldaram – e mudaram – o pensamento humano.

Embora o trabalho tenha caráter científico, a linguagem livre e solta com que foi escrito – bem distante do chatíssimo jargão de estudos desse gênero – não demorou a atrair a atenção de editores suíços e europeus.

Em pouco tempo, a ingênua lista dos cem maiores cientistas da humanidade transformou-se num dos livros mais vendidos da Europa, já traduzido em mais de 30 línguas.

“Os Cem Maiores ‘Voyeurs’ da Humanidade”, título original, dado por seus autores, surgiu, nas livrarias suíças, em alemão, francês e italiano, os três principais idiomas falados por aqui.

Meses após essa primeira edição, a editora francesa “Hachette”, detentora dos direitos de tradução para mais de 20 outras línguas, lançou uma versão em inglês e outra em espanhol.

O editor suíço, Gustav Rosencreutz, entusiasta da obra, previu, em recente entrevista à BBC, não ter dúvidas de que, em alguns anos, o livro será sucesso até mesmo no Nepal.

A obra é realmente fascinante. Os autores elegem, logo na introdução, “a curiosidade humana como a maior de todas as virtudes”. Sem ela, argumentam, “provavelmente, ainda estaríamos andando de quatro, morando em cavernas e correndo atrás de caça”.

Você, leitor do Sacolão, quer saber quem está na lista dos cem mais? Todos os que merecem estão lá. Portanto, não há surpresas. Da Vinci, Einstein, Newton, Freud, Darwin, Copérnico, Galileu, dentre outros. Sem preocupação de saber quem é o primeiro e quem é o último.

Em vez disso, os cientistas são divididos simplesmente entre “voyeurs” de grandes e de pequenas coisas. Astrônomos, por exemplo, são classificados genericamente de “voyeurs” de estrelas; por sua vez, os estudiosos das partículas atômicas são “voyeurs” de ervilhas.

“A Terra e os demais planetas do sistema solar”, justificam os autores, “não passam de ervilhas cósmicas no Universo. Até mesmo o Sol, se comparado a outras estrelas, pode ser visto, com o máximo de boa vontade, como um rabanete”.

Os termos “ervilha” e “rabanete” servem para remeter o leitor a Gregor Mendel (1822-1884), monge agostiniano austríaco, de origem tcheca (nascido em Heinzendorf, na Silésia, região que na época fazia parte do Império Austro-Húngaro), famoso por suas experiências com ervilhas.

Mendel, apesar de ser considerado o pai da genética (descobriu as leis básicas da hereditariedade e identificou o DNA), sempre foi visto como um cientista menor. Nada mais injusto!

Alimentos transgênicos e experiências feitas com células-tronco, embriões humanos, clonagem etc. atestam a extraordinária modernidade desse “voyeur” de ervilhas.

“Não sabemos quantos cientistas dentre os cem listados por nós”, dizem os autores, “resistiriam à pós-modernidade, mas podemos dizer que Mendel é um deles”.

Gregor Mendel – atenção, leitor: não confundir com Gregor Samsa, personagem de Kafka, que, de repente, ao acordar, descobre ter-se transformado em uma barata – passou a vida a cuidar da horta de um convento de monges agostinianos.

De tanto observar a reprodução das ervilhas, Mendel resolveu fazer uma experiência, hoje, muito comum, nos laboratórios de grandes empresas, que pesquisam alimentos transgênicos: cruzou algumas sementes de rabanete com as de espinafre.

Com isso, ele imaginava obter o “rabanafre”, ou seja, um híbrido que tivesse a raiz do rabanete e as folhas do espinafre. Em vez disso, ele obteve o “espinete”, uma espécie de Frankenstein vegetal, com raiz de espinafre e folhas de rabanete.

Em 1864, cansado de espionar ervilhas, rabanetes e espinafre, Mendel publica o resultado de anos de suas experiências e observações, “Biologia: Evolução das Espécies”.

Além das leis da hereditariedade e do DNA, Mendel não nos deixou diários sobre a sua vida pessoal. Tampouco teve biógrafos contemporâneos. Dessa forma, concluem os autores de “Os Cem Maiores ‘Voyeurs’ da Humanidade”, até hoje, não se sabe, ao certo, se ele sentia ou não prazer ao ver e documentar a reprodução das frescas e jovens ervilhas.


* Werner Ghestaldo é jornalista apátrida, radicado em Lugano, na Suíça. É colaborador de periódicos europeus e brasileiros. Sobre o tema, publicou diversos artigos, dentre os quais, “Eros e Ciência”, “Jabuticabas e Ervilhas” e “O Sexo na Gravidade Zero”.