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Minha
santa esposa Mary Ann recusa-se a ler minhas colunas no “Weekly
News”, de Iowa, Estados Unidos, onde teço comentários
como brasilianista. Ela tem ataques de asma de tanto rir e pergunta-me
onde encontro tantas coisas engraçadas e inverossímeis.
Meus leitores também consideram a coluna como sendo de
humor e durma-se com um barulho desses.
Eu poderia estar pescando trutas, confesso, mas o sangue de jornalista
fala mais alto e cá estou novamente cobrindo as trapalhadas
do governo brasileiro.
A moda é a câmara escondida. Registram coisas de
arrepiar guaxinins, servindo como moeda de troca para isso e aquilo,
mais para aquilo que é o dinheiro desviado das merendas
escolares, fome-zero e pensões de idosos.
Watergate é pinto diante dos galos da rinha do marqueteiro
Duda Mendonça. As cartas-bombas das licitações
dos Correios estão fazendo mais estragos do que fundamentalistas
que se explodem no Iraque.
“O doutor estava um gato na gravação”,
diz a secretária do diretor da estatal, mesmo antes do
bom-dia da segunda-feira.
“Você precisa cuidar mais de suas unhas. Sua mão
estava horrível naquela gravação onde recebia
dinheiro de uma empreiteira”, diz a mulher do deputado que
chega de mais um dia cheio no Congresso.
“A luz estava ruim demais”, reclama outro. “A
gente poderia contratar um diretor aposentado do Cinema Novo para
uma filmagem mais verossímil”.
“Ou se arruma um dublador ou colocamos legendas. A dicção
do deputado está inaudível para a Promotoria”,
diz um político numa happy-hour em Brasília.
“Fosse antes e poderíamos mandar o curta do escândalo
das fornecedoras de informática para o Festival de Cannes”,
diz um deputado barbudinho com bolsa surrada a tiracolo.
O Congresso conseguiu instalar uma CPI para elucidar essa onda
cinematográfica que assola o País.
Os atores flagrados negam tudo.
“Eu estava apenas representando”, diz o diretor de
licitações de uma estatal. “Deviam ter explorado
mais o meu perfil. Minha mãe queria que eu fosse ator”.
“Você não acha que aquela reunião flagrada
de propina poderia ter um fundo musical com o Ray Conniff”,
reclama um político fã de cinema.
Corre à boca pequena que, nas sessões de cinema
do presidente e seus convidados no Palácio do Planalto,
os filmes nacionais seriam substituídos por essas gravações
clandestinas.
Os atores, que circulam soltos, poderiam distribuir autógrafos
e, quiçá, serem contratados para atuar em alguma
novela de televisão.
Mas a CPI instalada cuidará de tudo isso e as coisas entrarão
em seus eixos.
Certamente a briga será definir se os filminhos são
dramas ou comédias.
Ou se a classificação será livre ou proibida
para menores de dezoito anos.
*
Stan O. Laurel cobriu vários escândalos
políticos e sexuais no seu tempo de repórter do
jornal “The Gay News”, em Topeka, Kansas. Com seu
sotaque de caipira americano, ele acrescenta “e cada um
mais cabeludo que outro”. Mas garante que tudo era pinto,
perto do que acontece em Brasília. |