Globalização acaba
com os pobres

“Como vai a guerra contra a pobreza, majestade?”, pergunta ilustre visitante de um reino imaginário, descrito em famosa história em quadrinhos, intitulada aí, no Brasil, “O Mago do Rei”, tradução do original inglês “Wizard of Id”. “Estamos ganhando”, responde o rei. “Mas, como, majestade, se há milhares de pobres em todos os cantos da cidade?”. “Pois é, eles estão perdendo”.

Lembrei-me dessa piada, enquanto comparava os dados da ONU sobre a pobreza no mundo com os do Instituto para Altos Estudos Militares, Estratégicos e Demográficos, sediado aqui, em Londres.

Após considerações sobre a metodologia adotada, as conclusões são basicamente as mesmas: a pobreza diminuiu drasticamente entre 1991 e 2000.

Essa é a boa notícia. A ruim é que os pobres estão virando miseráveis.
Vamos aos números. Há, no planeta, hoje, três bilhões de pessoas (metade de um total estimado em seis bilhões de habitantes) que sobrevivem – gostaria muito de saber como conseguem tal milagre – com o equivalente a um dólar por dia, 30 dólares por mês.

Esse é o contingente que a ONU classifica como abaixo da linha de pobreza, ou seja, são indigentes ou miseráveis.

O segundo grupo – com renda mensal equivalente a 200 dólares – é formado por pobres, que somam outros dois bilhões de pessoas.

O terceiro estrato concentra um bilhão de pessoas, das quais 20% (200 milhões) podem ser considerados ricos; e 80% (800 milhões) remediados.

Antes da globalização, com a população calculada em cinco bilhões de habitantes, a distribuição da riqueza era a seguinte: 20% eram ricos ou remediados (classe média), 60% eram pobres (renda entre 200 dólares e 300 dólares por mês), e os restantes 40% eram indigentes (renda mensal abaixo de 200 dólares).

Resumo da ópera: os pobres que, antes da globalização, somavam três bilhões de pessoas, num universo de cinco bilhões, tiveram seu contingente reduzido para dois bilhões, num universo de seis bilhões.

Em outras palavras, a globalização reduziu em um bilhão de pessoas o número de pobres. Em compensação, elevou o contingente de miseráveis de dois bilhões de pessoas para três bilhões.

Cadê o pobre que estava aqui? Virou miserável. Cadê o remediado? Virou pobre. Cadê o rico? Virou remediado. E o milionário? Virou rico.
Assim caminha a humanidade!

O mais curioso é que o trabalho, elaborado pelo Instituto de Altos Estudos Estratégicos, atribui esse “efeito dominó” perverso à derrocada do comunismo na ex-União Soviética e nos países satélites da Europa Oriental.

“Nada menos do que 500 milhões de pessoas viviam subempregadas, morando em precárias habitações coletivas, na ex-União Soviética, e em satélites europeus, quando, de repente, com o fim do socialismo, perderam tudo e passaram a engrossar o contingente de pobres e miseráveis do mundo”, constata o estudo britânico.

“Se isso (a derrocada do socialismo) não tivesse acontecido”, acrescenta o artigo, em tom de cinismo explícito, “com certeza, a globalização teria reduzido a pobreza, sem ter aumentado o contingente de miseráveis”.

“Bullshit!” Ou, como dizem, vocês, aí, no Brasil: “é melhor ouvir isso do que ser surdo”.

Não me contive de indignação e comentei com meu mordomo James, que acabara de adentrar a biblioteca, trazendo um fumegante bule de chá. Imperturbável, esperou que eu me servisse, recolheu a xícara e, antes de se retirar, comentou: “Nunca fui com a cara desse tal de James Bond”.

No dia seguinte, fiquei intrigado, quando ele veio me anunciar a visita de uma ex-aluna de pós-graduação, que fizera um trabalho sobre explosão demográfica: “Malthus – O Pai do Aborto”.

Antes de me deixar a sós com a ex-pupila – uma estonteante australiana, ruiva, aparentando uns 35 anos, tagarela e metida a Jean Harlow - , disse-me, em voz baixa: “Pois é, mister Goodson, se os pobres tivessem ouvido as advertências de nosso conterrâneo Malthus, não estariam hoje em situação tão precária”.

Pensei comigo, enquanto apalpava, imaginariamente, os seios de Jennifer, a ex-aluna, que James deveria fazer freqüentes incursões à minha biblioteca, nas horas de folga.

No dia seguinte, resolvi testá-lo, perguntando-lhe o que ele achava da globalização. Ele estava no terceiro degrau de uma pequena escada, de onde puxava um a um os livros de uma estante alta para tirar-lhes o pó.

Limpou o último livro da estante, desceu, apoiando-se com uma das mãos na escada, até o chão e, vagarosamente, como se ganhasse tempo para pensar, começou a elaborar a resposta.

“Tenho um sobrinho, em Gloucester, que fez concurso para trabalhar como jardineiro, na prefeitura local. Realizou as provas teóricas e obteve boa classificação (32º colocado). Apenas 50 foram chamados para a segunda fase. Havia 25 vagas”.

“Perguntaram-lhe, então, se, além de inglês, tinha fluência em algum idioma estrangeiro (alemão, francês ou espanhol). Obviamente, a resposta foi negativa. Aí, quiseram saber se pretendia matricular-se em algum curso universitário e, se, depois, faria pós-graduação”.

“A certa altura da conversa”, concluiu James, “meu sobrinho quis saber do seu interlocutor de que lhe valeriam tais conhecimentos se ele queria apenas cuidar de plantas e flores”. A resposta veio rápida: “A globalização exige domínio da internet, de várias línguas e de conhecimentos gerais interdisciplinares”.

“E qual era o salário oferecido pela prefeitura, James?” “Cinqüenta libras por semana, senhor”.


* Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia urbana por Oxford, e autor de artigos sobre o tema, como “Globalização, a Revanche dos Ricos”, “James Bond, o Robin Hood dos Poderosos”, e “João Paulo 2º e a Derrocada do Socialismo”.