Habemus Severinum

Por pouco, o Brasil não teve o seu primeiro papa da história. Se a manobra, planejada cuidadosamente, durante a viagem da delegação brasileira para participar do enterro de João Paulo 2º, no “Aerolula”, tivesse dado certo, o sucessor do cardeal Wojtyla não teria sido Bento 16, mas, sim, Severino 1º.

Um guarda suíço, chamado Fritz Hannenberg, descobriu, por acaso, a trama e estragou tudo, denunciando Severino Alicante, que estava infiltrado entre os 115 cardeais eleitores, na Casa de Santa Marta, uma espécie de hotel do Vaticano.

A história foi contada na edição dominical que se seguiu à eleição do papa, pelo diário italiano “L’Osservatore Toscano”.

O repórter que assina a reportagem, Nicola Fumetti, ficou sabendo de tudo, sem necessidade de ouvir o guarda Hannenberg, proibido – como todos os demais membros do Batalhão Suíço – de dar quaisquer declarações sobre o que acontece no cotidiano da Cidade do Vaticano.

Como os leitores do Sacolão devem saber, a diplomacia brasileira não perde nenhuma oportunidade para aparecer na mídia internacional: promove jogos da seleção de futebol, pede perdão a países africanos por ter escravizado negros, e faz campanha para acabar com a fome no mundo, já que, no Brasil, isso parece impossível.
Todas essas ações, segundo o jornal italiano, têm a finalidade de chamar a atenção do mundo para a América Latina e, em particular, para a pátria de Macunaíma. Com isso, esperam os autores dessa estratégia, o Brasil poderá, em alguns anos, conseguir um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Em tal contexto, a sucessão de João Paulo 2º pareceu à diplomacia tupiniquim excelente oportunidade para colocar em evidência máxima o maior país católico do mundo.

A primeira reunião sobre a sucessão do papa polonês foi feita ainda na viagem de Brasília para Roma, a bordo do “Aerolula”. As informações, recebidas pelo embaixador brasileiro na Santa Sé, e repassadas à comitiva presidencial, davam conta de que o colégio de cardeais estava dividido ao meio entre conservadores e progressistas.

Em tais circunstâncias, historicamente, os cardeais não se arriscam e costumam – como aconteceu também na recente eleição de Joseph Ratzinger – votar no candidato mais idoso e que seja respeitado por todas as tendências.

Todas as projeções, portanto, tendiam à conclusão de que as chances de o sucessor de João Paulo 2º ser um cardeal latino-americano, asiático ou africano seriam mínimas.

Talvez por isso, e não tendo nada a perder, alguém da comitiva, cujo nome o repórter italiano não revela, invocando o direito de manter o anonimato de sua fonte, deu a idéia: “Que tal o Severino?”

O plano sugerido parecia, ao mesmo tempo, simples e engenhoso: infiltrar Severino no Conclave dos Cardeais.

Com isso, se fosse eleito, hipótese considerada absurda até mesmo pelo próprio autor da idéia, ele (Severino) teria de renunciar ao seu cargo de presidente da Câmara de Deputados; se não fosse, ao menos, o governo ficaria sabendo, nos mínimos detalhes, de todos os bastidores da eleição do papa, aumentando, com isso, as chances de o sucessor de Bento 16 vir a ser, finalmente, um cardeal brasileiro.

“Bingo!”, teria gritado, eufórico, alguém de certo destaque, em meio à animada e barulhenta comitiva presidencial, no “Aerolula”.

Consultado, Severino concordou imediatamente com a idéia. A propósito, conta “L’Osservatore”, lembrou-se, com orgulho, de um ilustre ancestral florentino, que teve de fugir da Itália, no início do século 16, após envolver-se em conspiração frustrada, para depor ninguém menos do que o poderoso Lorenzo Medici, o Magnífico.

Antes de chegar ao Brasil, o ancestral de Severino passou um tempo entre Lisboa e a cidade do Porto. Em 1534, finalmente, desembarcou, em Recife, na companhia de Duarte Coelho, o segundo governador geral da então Terra de Santa Cruz.

Nessa altura da conversa, relata Nicola Fumetti, “alguém da comitiva presidencial”, identificado na reportagem como o morubixaba-mor, “quis saber das profecias de Nostradamus e de São Malaquias a respeito do fim próximo do papado”.

As respostas vieram rápidas: “Ambos”, revelou o conselheiro especial para assuntos esotéricos da comitiva, “concordam que o sucessor de João Paulo 2º será o penúltimo papa”.

O vidente francês não traça os perfis dos dois últimos pontífices, mas São Malaquias, que fez suas profecias na Irlanda, onde viveu, no século 13, descreve o 265º pontífice (sucessor de João Paulo 2º) como sendo “a glória da oliveira”, tradução do latim “gloria olivae”.

A livre interpretação da profecia do santo irlandês teria dado mais força ainda à candidatura de Severino.

A explicação do repórter italiano para esse fato é a seguinte: “O sucessor do papa polonês tanto poderia ser o representante de um país produtor de azeitonas – Itália, Espanha, Grécia ou Portugal – como, em sentido figurado, ser um descendente da “glória da oliveira”, sendo a glória representada por Florença e a oliveira pela Itália.

O plano foi posto em ação e estava dando certo até que, na segunda-feira, dia 18 de abril, véspera da eleição do cardeal Ratzinger, um dos mordomos do Vaticano, seguindo rotina secular, por volta das 22 horas locais, bateu à porta da suíte onde Severino estava hospedado. Perguntou, em latim: “O irmão aceita um chá ou um copo de leite?”

Como não houvesse resposta, o aio da Santa Sé repetiu a pergunta, desta vez, em italiano. Severino entendeu, abriu a porta e serviu-se de leite, de chá e alguns biscoitos.

Mais tarde, sonhando com Garanhuns, resolveu, às escondidas, ir até a cozinha da Casa de Santa Marta, onde acabou sendo surpreendido por Fritz Hannenberg, conhecido entre seus colegas da Guarda Suíça como “caçador de cardeais sonâmbulos”, enquanto preparava uma deliciosa tapioca, usando, claro, ingredientes típicos dessa delícia nordestina, que ele trouxera nas malas de viagem.

Obviamente, o caso foi abafado. Acontece que, por uma daquelas coincidências que só ocorrem uma vez a cada milênio, as mulheres de Fritz, o guarda suíço; e de Nicola Fumetti, o repórter do “L’Osservatore Toscano”, são primas, fofoqueiras, e vizinhas, moradoras de um bairro da periferia de Roma, chamado Tiburtina.

Por motivos óbvios, o Vaticano não se manifestou sobre o ocorrido, ignorando a reportagem do diário italiano. Mas, Severino Alicante, concedeu extensa entrevista na qual disse, dentre outras coisas, que o “episódio serviu para mostrar que o baixo clero não é ouvido no Vaticano”.


* Werner Ghestaldo é jornalista apátrida, radicado atualmente em Lugano, na Suíça. A respeito desse assunto, publicou, em diversos periódicos europeus, artigos e ensaios como, dentre outros, “Recife e Olinda, Refúgios dos Alicantes”, “De Florença a Garanhuns - Uma Viagem Sem Volta” e “Pedro Não Calça Mais Sandálias”.