Asses off

Confesso que duas coisas me fazem tirar a bunda da cadeira: uma pesca de trutas e a viagem ao Brasil para ver o povo tirando a bunda da cadeira para escolher os melhores juros, atendendo ao apelo do Presidente Lula.

Minha santa esposa Mary Ann dificilmente tirará a bunda da cadeira para se despedir, em seus 120 quilos, limitando-se a um aceno rápido com as mãos, enquanto me vê sair afoito com minha Smith-Corona 1956 e uma pequena valise de mão em direção ao aeroporto.

Meus leitores do Weekly News, Iowa –, que não acreditam no que escrevo como brasilianista – também não tirarão suas bundas de cadeiras da varanda para um cumprimento ao me verem passar.

Espero que o comandante do Boeing que me levará até ao Brasil fique com sua bunda colada na cadeira até meu desembarque, deixando seus arrufos com aeromoças para depois.

Apenas a mentira de que tinha uma garrafa de gim fez com que Kenneth Goodson, o brasilianista inglês, tirasse a bunda da cadeira e fosse até ao meu quarto de hotel para discutirmos juntos essa matéria sobre o apelo do presidente aos brasileiros.

Tendo conta bancária no Brasil – infelizmente – lá fomos nós conversar com o gerente atrás de melhores juros. Com nossas perguntas a respeito do assunto ele tirou, sim, a bunda da cadeira. Mas foram pelos sacolejos de seu corpo com a gargalhada que assustou outros clientes. Depois se limitou a um sorriso de esgar, que poderia bem significar “por que vocês não vão pentear macacos?”

Num outro banco o gerente, sem tirar a bunda da cadeira, limitou-se a dizer e perguntar se realmente acreditávamos nisso e que éramos os primeiros a consultá-lo sobre o assunto.

Num banco estatal foi bem pior. O gerente fez com que dois seguranças tirassem as bundas de seus banquinhos e nos colocassem pra fora, dizendo estar muito ocupado para ficar se preocupando com absurdos.

Chegamos mesmo a duvidar que o presidente tenha dito isso, mas os tapes da televisão do hotel confirmaram que realmente o apelo estava lá, de terno Armani combinando com a gravata inglesa.

Goodson, o brasilianista inglês, deu um pause e depois um close nos olhos do presidente, que nos pareceu sóbrio. O beber, para esquecer o absurdo que havia dito, certamente ficaria para depois.

Paralelamente, vimos o vice-presidente Alencar e o presidente da Câmara Severino, bradarem aos quatro ventos contra os juros.

Daí, realmente, mais nada entendemos. Os juros são todos iguais em qualquer banco e o governo é quem fixa a taxa deles através do Banco Central e assim são estabelecidos para combater a inflação que ele mesmo provoca com as tarifas públicas.

Goodson, o brasilianista inglês, resolveu encher a cara de gim e pedir transferência para o Iraque, onde soldados tiraram a bunda da cadeira para voltarem deitados em caixões de madeira para o solo pátrio.

Eu comecei a sonhar com águas geladas repletas de trutas e tentar esquecer o assunto pensando em Mary Ann, minha santa esposa, com a bunda colada na cadeira se empanturrando de chocolate.

Fomos para o bar mais próximo e ficamos a observar bundas saídas de cadeiras em direção ao toilete feminino.


* Stan O. Laurel, cujos antepassados são peregrinos conservadores e foram para a América a bordo do Mayflower, no século 17, considera-se republicano liberal. Embora profundamente religioso e residente em região rural, gosta de piadas picantes e solta vez por outra alguns impropérios em seus escritos.