Ilhéus são mais felizes

Não há qualquer explicação filosófica, racional ou econômica aceitável, capaz de nos fazer entender por que habitantes de ilhas se sentem invariavelmente mais felizes do que moradores de regiões continentais. Talvez a literatura seja a chave desse enigma, já que, desde tempos imemoriais, tudo aquilo que o homem sempre quis ter se encontra numa ilha.

Ilhas e seus habitantes (reais ou imaginários) fascinam as pessoas. Para navegantes, exaustos, após meses de mares e oceanos, comendo mal, e enfrentando tormentas e maremotos, a visão de uma ilha é sinal de trégua, descanso, boa comida e – com um pouco de sorte – de nativas “vidradas” em marinheiros. Ou seja, um paraíso!

Até aí, tudo bem. É fácil de entender. Mas o curioso é que a sensação de perene felicidade permanece intacta entre ilhéus, quando “marinheiros modernos”, mais conhecidos como turistas, vão embora, jurando voltar na primeira oportunidade.

Obviamente, de cada cem mil visitantes, um ou outro volta para uma temporada mais longa ou até mesmo para ficar definitivamente. Nesse caso, é intrigante a alegria com que nativos e nativas recebem o novo morador.

Esse é um mistério que permanece insuficientemente explicado até hoje. Literatos, pintores, músicos, vagabundos, naturalistas, antropólogos e assemelhados nos fornecem apenas razões parciais para seus encantamentos. Ainda carecemos de razões mais sólidas para o fenômeno.

Coincidência ou não, no século 16, o inglês Thomas Morus localizou exatamente em uma ilha imaginária a sua “Utopia”, o lugar onde as leis são seguidas, a justiça é acatada, a democracia é real, e as pessoas se respeitam.

Algum tempo depois, no final do século 19, o pintor Paul Gauguin achou não uma, mas centenas de pequenas ilhas paradisíacas, na Polinésia Francesa. Encantou-se com o que viu – lindas nativas jovens, vestindo apenas guirlandas de flores -, pirou e nunca mais quis regressar a Paris, a Cidade Luz.

Agora, pergunto ao leitor do Sacolão: quem você acha que são mais felizes: os brasileiros, com oito e meio milhões de quilômetros quadrados, para pintar e bordar; mais de oito mil quilômetros de litoral, repletos de biquínis maravilhosamente recheados; biodiversidade magnífica; e permissividade quase total, ou os cerca de 400 mil ilhéus, distribuídos em três ilhotas, localizadas entre a Itália e a Tunísia?

Se você respondeu que são os brasileiros, errou feio. “Brazucas”, segundo pesquisa realizada pela Unicef, estão apenas em 27º lugar, na lista dos povos que se consideram mais felizes, que é liderada – para surpresa geral de todos – por malteses, habitantes de três ilhas principais (Malta, Gozo e Comino), que fazem parte de um pequeno arquipélago, localizado ao Sul da Sicília.

Da lista dos cinqüenta povos mais felizes do mundo, nada menos do que 35, ou seja, 70% do total vivem em ilhas soberanas ou pertencentes a governos de países continentais. Dentre esses, destacam-se presenças óbvias, em razão do alto padrão de vida, como, dentre outros, suecos, noruegueses, holandeses e americanos.

Alguns dos demais ilhéus felizes do mundo, além dos campeões malteses: maldivenses, habitantes das Ilhas Maldivas, pertencentes à Índia; islandeses, irlandeses (do Sul, “off course”), jamaicanos e comorenses, moradores das Ilhas Comores.

O mais curioso é que na lista dos 15 países mais felizes, considerados continentais, nos Atlas de geografia, alguns também são ilhas, embora gigantescas, como, por exemplo, a Austrália, a maior ilha do planeta; a Indonésia, composta por mais de duas mil ilhas maiores e principais, e a Inglaterra.

Voltando aos ilhéus: apenas filipinos, cubanos, haitianos e porto-riquenhos consideram-se menos felizes do que os moradores de países continentais.

Japoneses e neo-zelandeses constituem casos especiais. Dentre os nipônicos – o Japão é considerado país continental na listagem da Unicef, embora seja formado por várias ilhas grandes e médias -, os que se consideram mais felizes são os que vivem em minúsculas e remotas ilhotas.

Por sua vez, os neozelandeses, que também são ilhéus, morrem de inveja de seus vizinhos australianos, que eles consideram continentais. Não há regra sem exceção.

A conclusão óbvia que se pode tirar disso tudo é a seguinte: se você, leitor do Sacolão, é um feliz morador de alguma remota ilha, perdida ao longo do extenso litoral brasileiro, curta a felicidade plena e resista bravamente à vontade de migrar para qualquer cidade continental.

Se, ao contrário, você é um reles habitante de cidades continentais, ou, pior, um sofredor de algumas das megalópoles brasileiras, planeje, juntamente com familiares e amigos, regulares “invasões” de ilhas próximas, durante os feriados prolongados.

O simples fato de você pisar numa ilha por alguns dias, semanas ou – suprema felicidade! – meses não vai aumentar a sua conta bancária, muito pelo contrário; também não vai resolver nenhum dos seus problemas existenciais e de relacionamento.

Mas, quando você estiver de volta ao continente, com aquele corpinho de índio reciclado, e aquele ar de descobridor do segredo da eterna juventude, perceberá que, daí em diante, todas as portas começarão a se abrir, com incrível rapidez.

Sem mais, nem por que, você se sentirá alvo da inveja deslavada dos colegas de trabalho, todos – é claro – homens e com aquela cor típica branco esverdeada dos citadinos. Já as mulheres (casadas, solteiras, jovens, de meia idade e até ninfetas) olharão para você com aquele ar pidão de filhote abandonado.

Na academia, a loira escultural, que malha, sempre de cara fechada, ao lado da sua esteira, finalmente, lhe dará aquele sorriso, que você tanto espera, significando “sim, vamos jantar um dia desses”. E tudo isso só porque você passou um tempo numa ilha.

E, agora, a pergunta final: por qual motivo os malteses se sentem tão felizes? A resposta é simples: desde o dia 1º de janeiro deste ano, Malta pertence à União Européia, ampliada para 25 países membros. E isso significa vultosos investimentos durante duas décadas, bancados por sócios mais ricos da comunidade.

Ou seja, eles já conseguiram chegar ao 1º Mundo. Em mais dez ou 15 anos, estarão esbanjando riqueza e alegria. Enquanto isso, abaixo do Equador, a briga por um lugar ao sol continua cada vez mais feia.


* Kenneth Goodson é brasilianista e Ph.D. em antropologia insular por Oxford. É autor de vários artigos e teses acadêmicas sobre o tema, dentre os quais: “O Náufrago e Sharon Stone”, “Esqueçam os Continentes, Ocupem as Ilhas” e “Em Ilhas, Nada É Proibido”.