As "pirâmides" de Brasília

Correspondente na Europa

Por incrível que pareça, o Brasil consegue ser assunto, embora bissexto, aqui na Europa. O bissexto vai por conta de qualquer tema que não seja futebol, café, mulatas, carnaval e praias paradisíacas, cheias de mulheres, vestindo biquínis do tipo fio dental.

A pedido do “Corriere della Sera”, viajei no início de março até a cidade de Gotemburgo, no sul da Suécia, para cobrir um congresso de arquitetos, urbanistas, paisagistas e assemelhados sobre cidades e aglomerações humanas futuristas.

Se o leitor do Sacolão pensou em Brasília como o centro dos debates, acertou em cheio. Por sorte, conheci a chamada “Capital da Esperança”, na década de 70, quando trabalhei como correspondente de periódicos europeus em São Paulo.

Por isso, fiquei mais à vontade, durante os três dias do evento, do que a maioria dos cerca de 300 participantes, que conheciam Brasília apenas por fotos, maquetes, cartões postais, plantas e desenhos.

O primeiro dia foi de total e bucólica monotonia. Arquitetos – alguns mais ou menos famosos, outros totalmente desconhecidos – duelavam pelo discutível privilégio de qual escola de arquitetura teria sido a fonte de inspiração de tão arrojada urbe.

Alemães, suecos, dinamarqueses e noruegueses, presentes em grande número, insistiam em creditar à “Bauhaus” (escola alemã de design da década de 30) o estilo arquitetônico de Brasília. Por sua vez, franceses, belgas, suíços e luxemburgueses atribuíam, acertadamente, a Le Corbusier a inspiração inicial dos idealizadores da capital brasileira.

Obviamente, havia também entre os participantes espanhóis (galegos e catalães, em sua maioria), italianos, portugueses, britânicos e irlandeses, dentre outros.

Ao longo do primeiro dia, italianos, britânicos e irlandeses abstiveram-se de defender quaisquer teses. Ficaram só ouvindo.

No segundo dia, após o almoço, inebriado, talvez, pelo efeito de um “irish coffee” duplo (café, com uísque e chantilly), um arquiteto, natural da chamada “ilha verde da Europa”, franzino e de óculos redondos, lembrando James Joyce, e com um vozeirão, à moda de Spencer Tracy; pediu a palavra.

Após uma seca saudação aos presentes, anunciou solenemente que “Brasília era o melhor exemplo de uma anticidade futurista e tecnológica”. Alguma coisa no estilo de “Metrópolis”, do diretor Fritz Lang, completou. Foi um “frisson” generalizado.

Seguiu-se uma onde de protestos. Dois ou três oradores fizeram questão de destacar a graça, a leveza e as curvas de Brasília, em contraste com a aridez do Planalto Central brasileiro.

Animados pela “bomba” irlandesa sobre a platéia, agora irremediavelmente dividida entre fãs e críticos de Brasília, três urbanistas (um britânico e dois italianos) inscreveram-se para falar.

Pausadamente, no melhor estilo britânico, Henry Bacon traçou um paralelo entre as pirâmides do Egito e os edifícios públicos, casas particulares e conjuntos residenciais e comerciais brasilienses, dispostos em formato de avião: as asas apontadas uma para o Norte e outra para o Sul; e o corpo na direção Leste (a cabine) e Oeste (o meio e a cauda).

Tanto as pirâmides como o traçado em forma de avião do plano piloto de Brasília impõem respeito aos súditos, disse Bacon. “A diferença é que, no Egito, os escravos construíam túmulos para faraós, sacerdotes, escribas e famílias, enquanto que, em Brasília, as ‘pirâmides’ servem de local de trabalho à imensa legião de funcionários”, completou o conterrâneo de Shakespeare.

A reação da platéia foi imediata: todos falando ao mesmo tempo, os ânimos se exaltando e as vozes num crescendo. Foi preciso a intervenção do discreto e diligente sueco, Joërg Sorensen, que presidia as sessões e os painéis do evento. Diplomaticamente, ele convocou uma pausa para o café.

Após o reinício dos trabalhos, reinava, na platéia, a expectativa de ouvir, por parte dos dois expositores italianos, comparações entre a capital brasileira e algumas cidades da Renascença.

Expectativa totalmente frustrada, já que o primeiro urbanista italiano inscrito, Vittorio Tedesco, classificou Brasília de “uma cidade stalinista”. Em resposta aos protestos de parte da platéia, que ameaçava retirar-se, o urbanista argumentou que, em Brasília, “os moradores e visitantes não podem interagir com a geometria e suntuosidade da cidade”.

“As pessoas que destoam ou criticam a chamada ‘ilha da fantasia’ são logo estimuladas a cair fora”, lembrou Tedesco. E deu um exemplo que causou certa perplexidade. “O metrô de Brasília”, disse, em tom confidencial, “fecha às 18h30, logo após o fim do expediente”.

“O motivo para tamanha pressa é um só”, concluiu o urbanista italiano: “tirar o mais rápido possível o povão, morador das miseráveis cidades-satélites, do plano piloto” de Brasília.

Mais sutil do que seu antecessor e conterrâneo, Beppo (apelido de Giuseppe) Segre encerrou os trabalhos do segundo dia (o terceiro foi dedicado apenas ao congraçamento etílico-gastronômico), fazendo uma erudita comparação entre Brasília e o livro “As Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino.

Para quem não se lembra, nesse livro, o aventureiro veneziano Marco Polo faz um relato imaginário de suas viagens por cidades fabulosas do vasto império mongol ao imperador Kublai Khan, neto de Gengis Khan.

A certa altura da narrativa, Kublai Khan se dá conta de que as cidades descritas são fruto da imaginação de Marco Polo, mas encantado pela riqueza de detalhes ele finge acreditar na existência delas.

Para Segre, se Calvino tivesse conhecido Brasília, certamente a teria incluído entre “as cidades invisíveis”, descritas por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Joaquim Cardoso, ao imperador-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.

O título para a descrição que Calvino faria de Brasília, segundo Segre, seria “a fantástica capital, onde automóveis e pessoas reais são transportados por uma gigantesca e imaginária aeronave”.


* Werner Ghestaldo é jornalista apátrida, radicado em Lugano, na Suíça. Foi, na década de 70, correspondente do “Corriere della Sera”, de Milão, em São Paulo. É autor de artigos e ensaios, dentre eles: “JK, um Faraó no Século 20”, “A Sociedade Alternativa de Dom Bosco” e “As Aventuras de Ramsés II no Planalto Central”.