Congresso desce mais ainda

Duas ou três pessoas notaram que eu faltei com minha coluna no mês passado. Levei uma bela bronca do editor-chefe e morri de vergonha pela minha falha. Os recentes acontecimentos na Câmara dos Deputados, em Brasília, deixaram-me catatônico por cinco dias.

Não fossem as compressas com ervas medicinais e ungüentos aplicados pela minha santa esposa Mary Ann, temo que nunca mais me recuperaria do choque.

E olhem que minha Smith-Corona 1956 já escreveu sobre tudo de mais bizarro e paradoxal nesta minha carreira de brasilianista, com uma coluna semanal do ‘Weekly News’’, Porkville, Iowa, Estados Unidos.

Kenneth Goodson, o brasilianista inglês, diante do que ocorre em Brasília, pensou em atear fogo ao próprio corpo diante do Congresso, desistindo tão logo caiu em si que não era cidadão brasileiro e que teria melhor proveito se se imolasse pelo casamento do Príncipe Charles com a Camila Parker.

Sentiu, como eu, mesmo sendo estrangeiro, um certo constrangimento em ver chegar a um dos mais importantes cargos da nação - em meio a manobras escusas, aumento de salários e promessas de cargos – o tal deputado.

Vindo do baixo clero, derrotou o candidato do governo e balbuciou, em seu primeiro discurso, que colocaria o Executivo em seu devido lugar.
E, pouco depois, que não aceitaria supositórios do governo goela abaixo, não me atrevendo aqui a interpretar se é por aí que são aplicados os supositórios.

Tentou dobrar, como prometido, o salário dos deputados e, não conseguindo por intervenção do Senado, aumentou as verbas de representação na calada de uma noite.

Foi dançar frevo em seu curral eleitoral em meio a bois sonsos alimentados com cestas básicas que o elegeram, para comemorar sua vitória.

É contra o aborto de crianças acéfalas, tendo como argumento que, como ele, poderão chegar a exercer um alto cargo da nação.

Casamento entre homossexuais nem pensar, já que é cabra-macho e essa coisa de sexo é mesmo entre homem e mulher, valendo mesmo para o turismo sexual usando menores, que traz divisas para o Nordeste.

Fiquei sabendo de fontes limpas que – para não chocar mais a nação – Severino e o Presidente Lula combinaram não falar mais de improviso num mesmo dia.

E acho bom que não falem e fiquem quietos. Que sejam cúmplices no lançamento de medidas provisórias para aumentar ainda mais os impostos, considerados os mais altos do mundo. Que, de provisórias, essas mesmas medidas se tornem cada vez mais supositórias para o povo brasileiro até que, num momento de honra e dignidade, resolvam dar um basta nessas manobras escatológicas, não esperando até a próxima eleição para se vingarem através do voto.

Que, por enquanto, se vistam de luto e contem com o auxílio de uma imprensa que Lulas e Severinos tentaram censurar.

Eu continuo pasmo, martelando as teclas de minha Smith-Corona 1956, desacreditado de vez por meus leitores americanos que duvidam que o Brasil exista, registrando não manobras de um baixo clero, mas sim atos de sacristãos e coroinhas para desviar o vinho do padre.


* Stan O. Laurel mantém um recorde de que muito se orgulha: em 43 anos como colaborador do jornal “Weekly News”, jamais deixou de escrever a sua coluna. No caso do “Sacolão”, enquanto pescava no Pantanal, esqueceu-se de que fevereiro tem só 28 dias.