No nosso grande picadeiro

Eu comecei no picadeiro aos 14 anos, ajudando meu avô, o famoso palhaço Urtiga, a fazer um número cômico. O circo estava lotado, pois fazia a estréia numa pequena cidade do interior de Minas. Meu avô entrava no picadeiro num velho carro, sentado no banco da frente, o carro parava, ele saltava para cumprimentar o público e aí, o grande truque, o carro andava sozinho sem ele perceber e lhe dava uma trombada por trás. Urtiga caía dentro de um tanque que parecia cheio de água, mas era na verdade papel picado. Como a roupa dele estava cheia de cola, meu avô saía do tanque todo coberto com o papel picado colorido.

Era um número ingênuo e simples, mas a platéia adorava e não parava de aplaudir. E qual era minha participação na história toda? Eu era baixinho e ficava escondido no carro pedalando para ele andar, pois era uma bicicleta disfarçada. Na terceira noite do espetáculo, no meio de toda aquela gente batendo palmas, meu avô me fez sair do carro e me apresentou ao público, que aplaudiu com entusiasmo.

Foi a maior emoção da minha vida e me fez decidir na hora que eu queria era trabalhar no circo. Aos 22 anos, meu pai me obrigou a estudar e cheguei a me tornar professor, mas pouco exerci a profissão, pois era ainda mais sacrificada que a vida no circo. Hoje, 44 anos depois daquela estréia pedalando o carro, continuo no picadeiro, com orgulho e sacrifício, agora, mais do que nunca, pois o circo parece estar no fim, esquecido pelas autoridades e por parte do público.

Em todos esses anos, vi de tudo, no picadeiro e longe dele, neste nosso cada vez mais complicado Brasil. Gosto de comparar o circo com a vida do brasileiro, sempre lutando, nunca se entregando, apesar de tantos obstáculos, tanta gente ruim, incompetente e corrupta que dirige seu destino e o do país.

Nesta coluna, vou falar de tudo, principalmente do circo, de sua gente e do nosso povo. Vou procurar destacar o lado positivo das coisas e tentar mostrar ao leitor que o circo é vida e a vida é um circo. Até a próxima.