|
Inspirados
no exemplo do ministro da Cultura brasileiro, mais conhecido na
ONU por “Gilbert Singer”, cerca de cem países
menos desenvolvidos, apoiados por alguns mais adiantados, resolveram
fundar o “Bloco dos Esfarrapados”, eufemismo ao qual
recorro para traduzir, ao pé da letra, a expressão
“lowlives”, que, aí, no Brasil, equivale a
“ferrados”, ou melhor, a outra palavra que também
começa com efe.
Essa informação consta do relatório mensal
do “Le Monde Diplomatique”, publicado em meados de
março, em Paris, e com vasta circulação nos
meios diplomáticos africanos, asiáticos, latino-americanos
e europeus.
A coisa toda, segundo o “Le Monde”, teria começado,
em 2003, quando, na solenidade de abertura da Assembléia
Geral das Nações Unidas, após o discurso
oficial do presidente brasileiro, o ministro, cansado de ouvir
protestos vãos e falatórios inócuos, resolveu
dar uma “canja”, cantando alguns de seus sucessos
para os presentes.
Sem querer, penso eu, mas talvez me engane, naquele momento, o
ministro brasileiro acabava de inaugurar nova forma de diplomacia:
a cultural, mais aceita e entendida por todos, porque baseada
em música, quase sem palavras, difíceis de traduzir
e, portanto, potencialmente enganosas.
O espetáculo de Bill, sempre de acordo com o correspondente
do “Le Monde” na ONU, François Trompeur, teria
emocionado particularmente Nelson Mandela e sua mulher, viúva
de Samora Machel, líder revolucionário de Moçambique.
Outro casal ilustre, formado pelo senador democrata John “Queixo
Duro” Kerry e Teresa, esta de nacionalidade lusitana, mas
nascida em Moçambique, de acordo com o relato de Trompeur,
também teria ficado encantado, após o espetáculo
do ministro brasileiro.
O certo é que, após a “canja” internacional
do ministro-cantor, ganhou força, nos meio diplomáticos
de nações mais pobres, a idéia de criar-se
uma espécie de PIB cultural.
Esse novo indicador agregaria, além das frias estatísticas
habituais, o artesanato, o folclore, as línguas faladas,
mesmo que não escritas; etnias, religiões e nível
de tolerância racial, étnica e religiosa de cada
país. Enfim, a diversidade cultural.
Uma espécie de Índice de Tolerância e Inclusão
Social (Itis). O cálculo da renda per capita, por exemplo,
levaria em conta mais a diferença entre o que cada habitante
recebe e o que falta para que ele tivesse um nível de vida
médio, aceitável para os padrões de um país
pobre.
Conforme proposta a ser apresentada, durante a próxima
Assembléia Geral da ONU, em setembro, um fundo, formado
com recursos obtidos com a taxação da riqueza considerada
excessiva, seria usado pelo Banco Mundial, com a finalidade de
diminuir a pobreza e a miséria no mundo.
Para ter acesso a tais recursos, as nações pobres
precisariam preencher algumas condições: eleições
livres, fiscalizadas pela ONU; planejamento familiar, transparência
política e jurídica, dentre outras.
As novidades no Itis, que substituiria o atual Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH), e contaria pontos para a obtenção
dos recursos contra a pobreza, são polêmicas.
Por exemplo: quanto mais línguas oficiais, escritas ou
apenas faladas, o país tiver, mais chances terá
de obter os recursos da ONU. Na mesma linha, quanto mais houver
religiões, etnias, raças, com as respectivas diferenças
culturais,maior a quantidade de recursos à disposição.
A idéia, segundo o articulista do “Le Monde”,
já conta até mesmo com a simpatia de alguns países
industrializados, como, por exemplo, Rússia, Índia,
Suíça, Itália, Suécia, Holanda e Canadá.
Em compensação, há também fortes resistências
principalmente dos Estados Unidos, França, China, Austrália
e do bloco das nações árabes, à exceção
do Líbano.
O que está por trás das resistências, mas
não é dito oficialmente, é o monoglotismo
xenófobo dos Estados Unidos (inglês), China (mandarim),
França (francês) e Austrália (inglês).
Já os simpatizantes têm motivos diferentes para apoiar
o “Bloco dos Lowlives”. A Rússia, herdeira
do império soviético, sonha em conter o nacionalismo
das mais de 15 repúblicas federadas, fazendo conviver as
diversas línguas faladas com o russo, que é oficial
e dominante em todas elas.
Por motivos semelhantes, a Índia, onde convivem etnias,
religiões e línguas diferentes, também gosta
da idéia.
Suécia e Holanda já são oficialmente bilíngües:
seus alunos são alfabetizados simultaneamente em sueco,
holandês e inglês. O Canadá também é
bilíngüe (inglês e francês).
Itália e Suíça são as campeãs
mundiais da diversidade lingüística. Na “Bota”,
num território de pouco mais de 300 mil quilômetros
quadrados, nada menos do que 17 línguas são oficiais,
já incluído o italiano. Algumas das 16 restantes:
francês, esloveno, sérvio, servo-croata, alemão,
grego, albanês, sardo etc.
Nessa contabilidade, não estão incluídos
alguns dialetos importantes, como o napolitano, de vasta literatura
e canções populares em todo o mundo; o genovês
e o vêneto, dentre outros.
Com 17 línguas oficiais e inúmeros dialetos, a Itália
constitui-se na maior democracia lingüística do mundo.
Por sua vez, num território sete vezes menor do que o da
“Bota”, a Suíça também ostenta
nada menos do que quatro línguas oficiais: alemão,
francês, italiano e romanche.
Como o leitor já deve ter percebido, o Brasil que é
o padrinho dessa “geléia geral cultural” e
também do “clube dos sou pobre sim, com muito orgulho”
tem um “calcanhar de Aquiles”: o monoglotismo lingüístico.
Ao contrário da Itália, o Brasil, involuntariamente,
é claro, é uma das maiores ‘ditaduras’
lingüísticas do mundo. Num território de oito
e meio milhões de quilômetros quadrados, o português
é falado e entendido, por 180 milhões de pessoas,
com raras e insignificantes diferenças regionais. Um milagre!
Uma sugestão ao ministro da Cultura: que tal adotar as
línguas africanas (iorubá, bantu, congolês),
indígenas (tupi, tupi-guarani, xavante, caiová,
carajá, xavante etc.), européias (espanhol, italiano,
alemão e ucraniano) e orientais (árabe e japonês)
nas respectivas regiões de influência dessas línguas
e ensiná-las também às crianças brasileiras?
*
Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia
urbana por Oxford, e poliglota militante. Fala, fluentemente:
“olá, tudo bem? bom dia, e saúde!” em
122 línguas e 48 dialetos. É autor do ensaio clássico
“O Tradutor de Babel”. |