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A
revista londrina “Mock War”, expressão equivalente
em português a “Guerra de Mentira”, traz, em
sua edição de fevereiro, artigo assinado por Clive
Spitfire, especialista em estratégias militares, que propõe
a seguinte e transcendental questão: como seria o mundo
hoje se alguns dos grandes guerreiros da humanidade tivessem tido,
durante as principais batalhas, comportamentos quixotescos?
Antes que Spitfire responda, lembro aos leitores do Sacolão
aí, no Brasil, que este ano se comemora o quarto centenário
do famoso romance de cavalaria “Dom Quixote de La Mancha”,
de Miguel de Cervantes.
Nele, dom Quixote (o cavaleiro da triste figura), um nobre decadente,
resolve sair pela Espanha, montado em seu fogoso corcel, chamado
Rocinante, que, na verdade, não passa de um pangaré,
velho e magro; auxiliado por Sancho Pança, seu fiel escudeiro,
para salvar lindas donzelas de supostos raptores.
O problema é que donzelas já eram raridade naquela
época. Em vez delas, gordas matronas, embora jovens em
idade, tinham a sua gostosa fornicação interrompida,
em quartos sujos, de estalagens idem, pelo tresloucado nobre,
decidido, como George Bush, o filho, a impor a abstinência
sexual aos outros.
Na versão de Spitfire, os grandes guerreiros da humanidade
seriam, como aliás, todos os demais seres humanos, uma
mescla de Quixote (a idéia e o sonho), Sancho (a realidade
e o bom senso) e Rocinante (a ação e a estratégia).
De acordo com o articulista, que faz ao longo do artigo extensa
futurologia do passado, Alexandre, Aníbal, César
e Napoleão, dentre outros, partiam de um sonho, não
raro, esquizofrênico e quixotesco; para depois definir as
melhores e mais eficazes estratégias de combate a fim de
torná-lo real.
Após inúmeras batalhas e guerras, chegava, finalmente,
a hora de administrar, com sabedoria, o que haviam conquistado.
Nessa fase, tinham que assumir a sua porção Sancho
Pança.
Chega de conversa e vamos logo aos perfis traçados por
Spitfire. Intelectualmente melhor preparado do que os demais,
e educado por Aristóteles, Alexandre sonhou alto, guerreou
de forma ousada para sua época, mas teve pouco tempo para
exercer seu lado Sancho Pança, pois – como seu vasto
império – viveu pouco tempo.
Quanto a Aníbal, segundo o articulista da “Mock War”,
herdou do pai (Amílcar) o gênio militar. Sonhou alto,
guerreou como ninguém o fizera até então,
usando elefantes. Mas acabou sendo vítima da própria
grandeza, ao cometer grave erro estratégico.
Vencida a batalha de “Cannae”, que teve a duração
de uma semana, e na qual foram mortos cerca de 500 mil combatentes,
demorou muito para organizar o ataque final a Roma.
Aníbal, observa Spitfire, fez o mais difícil: atravessou
os Pirineus a pé, pela Espanha e França, e chegou
a menos de 400 quilômetros de Roma. Vacilou e, com isso,
deu a tempo aos romanos para preparar a expedição
de Cipião a Cartago (hoje Tunísia).
Curioso é que os romanos estavam mais longe de Cartago
do que Aníbal de Roma.
Ao traçar o perfil de César, o primeiro imperador
romano, o articulista da “Mock War” diz que ele sonhou
grande, guerreou e escreveu com igual qualidade, e – sobretudo
– administrou com sabedoria.
Tudo ia bem, até que Brutus, seu filho adotivo, encerrou
a sua brilhante carreira.
Para Spitfire, Napoleão teria sido uma espécie de
Alexandre moderno, só que menos culto do que o pupilo de
Aristóteles. Também sonhou alto e foi brilhante
estrategista, mas teve pouco tempo para administrar a glória.
Em seguida, o articulista traça o que, segundo ele, seria
o perfil ideal dos grandes conquistadores: sonhar como Quixote,
combater como Rocinante, e administrar como Sancho Pança.
O contrário disso, ou seja, sonhar como Rocinante, guerrear
como Sancho, e administrar como Quixote, seria, na opinião
do articulista, uma das causas da atual mediocridade dos líderes
mundiais.
Nos parágrafos finais do artigo, ele faz um paralelo entre
o infante Dom Henrique e o ex-primeiro ministro britânico,
Winston Churchill, embora nenhum deles tenha sido guerreiro, no
sentido restrito da palavra.
Churchill, segundo Spitfire, preocupou-se em demasia com a Europa,
esquecendo-se do resto do mundo. “Salvou a Europa de Hitler
e, em parte, de Stalin, mas perdeu o mundo para os Estados Unidos”.
Os melhores elogios do artigo são reservados para o fundador
da Escola de Sagres. Sem poder governar Portugal, já que
era infante (o herdeiro que não tem direito à sucessão
do trono), tratou de reunir todo o conhecimento disponível
à época sobre navegação marítima.
Com isso, sem jamais ter pisado numa caravela, tinha enjôos
só de olhar o mar, e sem ter dado sequer um tiro de bacamarte,
pois era avesso à guerra, construiu um dos maiores impérios
do mundo para Portugal.
Lido o artigo, resolvi pedir a opinião do meu mordomo James
sobre Churchill. Sempre faço isso quando o assunto é
futebol ou a vida de algum grande líder britânico.
“O que você acha de Churchill?”, perguntei-lhe,
de repente, enquanto me servia o tradicional chá das cinco.
Sua resposta veio curta e grossa: “Senhor, ele venceu os
“chucrutes”, mas, depois, entregou o ouro para os
bandidos”.
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Kenneth Goodson é
brasilianista,
Ph.D. em antropologia urbana por Oxford e autor de “Baco
e Afrodite: a Arte da Guerra em Tempos de Paz” e “O
Sextante de Eva”. |