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Eu
estava bem quieto, em gozo de férias ao lado de minha santa
esposa, Mary Ann, que, com seus 120 quilos e mais um saco de pipocas,
me espremia no sofá, vendo as notícias do Iraque.
O telefonema do brasilianista inglês Kenneth Goodson avisando
que essa eu não poderia perder, fez com que eu reservasse
uma passagem aérea na manhã seguinte para o Brasil,
jogando por terra e águas correntes e frias algumas pescarias
de trutas que ainda restavam praticar até depois do Carnaval,
que é quando começa o tempo de vida útil
do brasileiro.
Essa que eu não poderia perder
era a inauguração da escola do MST, onde se ensinava
a invadir terras improdutivas. E também as produtivas.
Cheguei a tempo da aula inaugural, já com o Goodson me
esperando com os recibos das matrículas.
Pensei que iríamos adentrar alguma sala de aula e ouvir
intermináveis discursos do Stédile, mas a primeira
lição seria toda prática, em meio a um descampado
cercado de arame farpado.
Recebemos, primeiramente, um boné vermelho, uma camiseta
do MST, uma bandeira e um alicate. Em seguida, uma lona preta
e umas varas de bambu.
A palavra de ordem era formarmos grupos de dez pessoas e aguardar
outras instruções.
A um sinal do professor, saímos correndo em direção
à cerca, cortamos alguns fios com o alicate e montamos
em minutos uma casinha de bambus coberta de lona preta.
Seria só isso?, pensei comigo. Foi quando de uma moita
saiu o Stédile com um cronômetro e me espinafrou
na frente de outros companheiros, dizendo que eu iria ter de passar
antes pela academia de ginástica do MST, com personal
training e tudo. Estava muito gordo, disse ele. Teria acompanhamento
médico, dieta específica e exames de colesterol
atualizado dia-a-dia. Um companheiro invasor teria de ser raquítico,
ter olheiras e face encovada, afirmou. Deveria também deixar
de lado essa minha barba grisalha tornando-a desgrenhada e mal
feita. E não carregar peso-morto, certamente se referindo
à minha Smith-Corona 1956 que não largo por nada.
Um senhor de terno e gravata, destoando de todos os companheiros
presentes, ria às bandeiras despregadas. Soube depois que
era o Ministro da Agricultura que viera de Brasília prestigiar
a inauguração da escola, não acreditando
ver um senhor de respeito e com uma máquina de escrever
nas mãos, cortando arame farpado, montando barraca de lona
preta e arfando como um asmático.
A aula continuou com o esquartejamento de uma vaca de papelão
previamente montada do outro lado da cerca. Em seguida vieram
as mulheres, cada qual com oito ou mais filhos e um bando de cachorros
vira-latas, que devem ter passado também pela academia
de ginástica do MST tal o número de costelas à
mostra.
Porcos, cabritos e éguas raquíticas adentraram em
seguida, acompanhados de uma fila de Corcéis II, Opalas
verdes com paralamas laranja, kombis sem portas e alguns volksvagens
sem escapamento.
Quando a bandeira do MST foi içada em um mastro de bambu,
com o Stédile a discursar com fundo musical de vários
rádios tocando Bruno e Marrone ao mesmo tempo, eu e o Goodson
fugimos para a nossa Kombi verde abacate – comprada de segunda
mão no Ceasa – e fomos invadir o McDonald’s
da Avenida Paulista, onde esquartejamos dois big-macs em questão
de segundos.
*
Stan O. Laurel, apaixonado pela “apple
pie”, tradicional especialidade norte-americana, e fã
de todo tipo de fast-food, confessa que, embora passando fome
no acampamento do MST, gostou muito do sabor do ensopado de abóbora,
quiabo, agrião e frango-capão que lhe serviram. |