Moscou ataca outra vez

À beira da lareira, esfregava as mãos para aquecê-las, enquanto contava os minutos que faltavam para chá das cinco, quando recebi um e-mail do editor do Sacolão, pedindo um artigo sobre o dono do Chelsea, o bilionário Abramovich, e do seu sócio Berezovski, ambos russos e vivendo exilados aqui, em Londres.

Como não entendo nada de futebol, pensei em repassar a tarefa para alguém mais capacitado. Quando ia responder ao e-mail, eis que adentra a biblioteca o meu mordomo James, trazendo, em uma grande bandeja, um bule de chá, fumegante; meia xícara de leite, biscoitos amanteigados, e alguns torrões de açúcar.

Só de ver tudo aquilo já me senti mais aquecido. O frio londrino de janeiro é de lascar. Lembrei-me imediatamente de que meu mordomo é uma enciclopédia ambulante, em se tratando de esportes, sobretudo, o futebol.

Sorvi, avidamente, alguns goles de chá, misturado ao leite, e, sem rodeios, fui direto ao assunto. “James”, perguntei-lhe, “que história é essa daquele bilionário russo ter comprado o Chelsea?”

“Então, Mr. Goodson, o senhor não sabe?” “Não, não sei de nada”, respondi. James então assumiu um tom professoral, que só os mordomos britânicos têm, e, solenemente, anunciou: “É o ouro de Moscou, senhor”.

“Que maluquice é essa, James! Você não sabe que a União Soviética não existe mais e que os filmes da série James Bond fazem parte do museu da Guerra Fria?”

“Sei bem disso, senhor, mas o ouro de Moscou a que me referi veio da exploração do petróleo russo e siberiano”.

“Ah, quer dizer que o ‘ouro de Moscou’ é a grana desviada da Yukos, a empresa petrolífera russa, da qual o Abramovich, o Berezovski e um outro (que está preso, na Rússia) eram sócios?”

“Exatamente, senhor. O Abramovich e o Berezovski conseguiram fugir a tempo, antes de a Yukos falir, transferindo, para bancos britânicos, nada menos do que 25 bilhões de euros cada”.

Ao perceber meu interesse pelo assunto, James, cujo sobrenome de família é Linesman, que, traduzido para o português, significa bandeirinha (aquele auxiliar do juiz de futebol), passou a discorrer longamente sobre os planos dos dois sócios russos.

Confesso que não tive saco para checar as informações do meu mordomo. Até porque não disponho de fontes confiáveis na área do popular esporte bretão. Por isso, limito-me apenas a relatá-las.

De acordo com meu mordomo, o futebol seria hoje o quarto negócio mais lucrativo do mundo, perdendo apenas para o petróleo, que é o primeiro; o café (2º) e a soja (3º). Daí, infere-se que os dois sócios saíram do negócio do petróleo para ingressar no do futebol, muito menos arriscado.

Existiria, sempre segundo meu mordomo, no mundo todo, em especial nos continentes asiático e africano, além da Europa e da América do Sul, enorme potencial de interesse popular por futebol.

O plano dos dois sócios russos é simples: investir por meio de parcerias em clubes europeus e sul-americanos. Em seguida, montar supertimes para vencer certames – campeonato europeu, Libertadores e mundial interclubes, que começarão a ser disputados regularmente a partir de dezembro próximo - capazes de atrair o interesse de bilhões de torcedores e de telespectadores.

Numa segunda etapa, a idéia seria estender tais parcerias a clubes asiáticos e africanos.

Nessa estratégia, conforme me confidenciou James, o Chelsea, de Londres, e o Corinthians, de São Paulo, seriam apenas os dois primeiros lances. Os passos seguintes incluiriam parcerias com alguns clubes italianos, alemães, espanhóis e holandeses, na Europa; além de mais clubes brasileiros e argentinos.

Concluídas as parcerias, teria então início a “guerra” pelos direitos de transmissão das partidas principalmente dos campeonatos brasileiro e argentino para Europa, Ásia e África.

A terceira etapa dessa estratégia seria a diversificação dos negócios, por meio da compra de emissoras de tevê, de casas de espetáculos e, finalmente, de empresas de telecomunicações.

“Mas, isso é a globalização do futebol, James”, disse-lhe, em tom enfático, dando-me conta de que tudo o que me acabar de contar realmente fazia sentido. “É exatamente isso, Mr. Goodson”.

Em seguida, “rempli de soi même”, cheio de si mesmo, como dizem os franceses, James deu início à sua explicação final, à qual, posteriormente, batizei de apoteose mental, em homenagem ao carnaval brasileiro, que está aí, pedindo passagem.

Em tom ao mesmo tempo solene e grave, no melhor estilo do conselheiro Acácio (personagem do escritor Eça de Queiroz, que só falava abobrinhas, sempre em tom solene, encolhendo a barriga e estufando o peito), James sentenciou:

“Pois é, Mr. Goodson: naquilo que os soviéticos fracassaram – dominar o mundo pela ideologia – a máfia russa poderá ter êxito, estimulando as paixões dos torcedores, dominando-os e, principalmente, ganhando muito dinheiro com isso”.

Aí, não resisti à tentação de provocá-lo. “Mas e se, de repente, os torcedores se derem conta de que estão sendo manipulados, James?”
“Isso jamais acontecerá, Mr. Goodson. Ao contrário, eles se matarão nos estádios, da mesma forma que os gladiadores romanos faziam no Coliseu”.

E arrematou: “Marx disse que a religião era o ópio do povo. Mas eu ouso acrescentar que, na verdade, não só a religião cumpre esse papel. Carnaval, folguedos populares e folclóricos, esportes, principalmente o futebol, também ajudam a manter o povo na ignorância”.

Concordei com ele, balançando ligeiramente a cabeça. Em seguida, resolvi dispensá-lo antes que ele tivesse a infeliz idéia de me pedir aumento de salário.


* Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia urbana por Oxford e torcedor fanático do Arsenal.