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Correspondente
na Europa
O
Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País),
inventado, na década de 60, pelo jornalista carioca Sérgio
Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, para ironizar
o cotidiano dos brasileiros, principalmente os políticos,
globalizou-se e, hoje, ataca em todos os cantos do planeta.
O caso mais recente registrou-se em Roma, a Cidade Eterna, onde
os guias turísticos, cansados de responder a perguntas
estapafúrdias, feitas por visitantes estrangeiros, resolveram
cobrar taxas de insalubridade, que variam de acordo com a origem
desses ricos e inconvenientes predadores do mundo moderno.
No topo da tabela de insalubridade estão espanhóis,
seguidos de perto por australianos, asiáticos e –
curiosamente – americanos de origem italiana. Os turistas
menos ignorantes, segundo ranking, elaborado pelo jornal romano
“Il Messaggero”, com base em informações
fornecidas por guias de turismo, são britânicos,
franceses e alemães.
Para tentar escapar das taxas de insalubridade, as principais
agências de turismo de Roma resolveram promover, sem sucesso,
campanhas de esclarecimento, antes das visitas aos locais de maior
interesse turístico da cidade.
Pietro Bonvicino, um dos mais antigos guias turísticos
de Roma, quase foi demitido, ao perder a paciência com uma
turista japonesa, que queria saber se Moisés (o dos dez
mandamentos) havia posado para Michelangelo, quando este esculpiu
a sua estátua.
“Essa era a intenção inicial do artista”,
disse Pietro, em inglês, enquanto, em tom de voz inaudível
para os demais, disparava, em italiano, uma série de impropérios
contra a turista nipônica.
“Infelizmente”, continuou, voltando subitamente a
falar em inglês, “isso não foi possível
porque, quando Moisés chegou a Roma, já bastante
idoso e alquebrado, ficou gravemente enfermo e morreu após
duas semanas”.
A turista nipônica, de volta ao hotel, queixou-se ao gerente
por ter sido exposta à execração pública.
“Mais de cem turistas de todas as partes do mundo riram
de mim”, lamentou-se a filha do Sol Nascente.
“A senhora teve sorte”, consolou-a o gerente. “Estrangeiros
que costumam visitar Roma são, em geral, muito contidos.
Se fossem italianos, além de sonoras gargalhadas, alguns
não hesitariam em rolar no chão de tanto rir”.
Graziella Papalardo, uma das mais famosas guias, especializada
em obras de arte do Vaticano, tinha acabado de mostrar a Capela
Sistina, construída entre os pontificados de Sixto IV (1471
a 1484) e de Júlio II (1503 a 1513), para um barulhento
grupo de australianos, coreanos e chineses, quando alguém,
no meio da “malta”, perguntou: “Será
que vai dar tempo, ainda hoje, de vermos as outras 15?”
Em inglês, Capela Sistina é “Sistine Chapel”,
mas, com freqüência, talvez devido ao som quase idêntico,
é chamada de “Sixteen Chapel”, décima-sexta
capela.
Não teve jeito de Graziella explicar a um jovem casal de
australianos que só havia uma Capela Sistina. Inconformados,
Alistair e Mary (ele ruivo e ela loira sardenta), ameaçaram
processar a agência de turismo, por propaganda enganosa.
Outro casal, bem mais velho, Manuel e Dolores, espanhóis,
católicos fervorosos, benziam-se e rezavam, diante das
ruínas do cárcere, onde os apóstolos Pedro
e Paulo, ficaram presos. Dona Dolores quis saber do guia, Duílio
Malavita, onde ficava e se seria possível visitar o túmulo
de Cristo.
Duílio, um dos poucos guias romanos que se gabava de entender
português e espanhol, por ter morado durante alguns anos
no Brasil, respondeu, bem humorado, em portunhol: “Mas então
a senhora não sabe que Cristo nasceu na Bahia e que morreu
na Catalunha?”
Diante da perplexidade de Manuel e Dolores, o guia encheu-se de
coragem, fez alguns requebros, como se fosse dançar um
“paso doble”, e cantou, em português: “Eu
conheci uma espanhola, natural da Cataluuuuuunha; dizia que tocava
castanhola, e pegava touro a uuuuuuunha”...
*
Werner Ghestaldo é jornalista apátrida,
radicado na Suíça. Foi correspondente do “Corriere
della Sera” em São Paulo, Nova York e Cidade do México.
É autor de diversas crônicas, dentre as quais, “Os
Hunos do Século 20” e “Turistas Go Home”. |