Que venha 2005,
estou calejado de Brasil

Se pensarem que vou fazer um balanço do ano que passou, como todos fazem, estão muito enganados.

Tenho em mim que 2004 foi ruim porque não tive tempo de pescar trutas nos riachos frios de Iowa.

Se não sabem o que isso significa, não me importo, com o devido respeito pelo leitor.

Estive todo o tempo em viagens sucessivas ao Brasil, que mereceu boas e profundas análises em minha coluna semanal no Weekly News, de Porkville, mesmo com meus leitores americanos achando que sou um ficcionista e esse país não existe.

Minha Smith-Corona 1956 quase ferveu e até agora está bamba em suas teclas, quase não dando conta de registrar tudo o que se passou durante o segundo ano do governo Lula. Temi, confesso, tê-la vigiada pelo Conselho Federal de Jornalismo, felizmente sepultado pelo Congresso.

Descansará uns dias, embebida em óleo Singer e reapertada com uma chave Phillips enquanto gozo de merecido descanso.

Resmas de sulfite A4 manuscritas ainda estão espalhadas pela minha escrivaninha, mas será um deleite para minha santa esposa Mary Ann arquivá-las e, quiçá, num futuro próximo, reunidas em livro, infelizmente num livro de humor.

Engordei como um porco, compensando a má comida servida nos aviões, graças às feijoadas e ao tutu com torresmo dos botecos brasileiros. Quase virei alcoólatra na companhia do brasilianista inglês Kenneth Goodson, que deu de beber vinho de garrafão Sang de Boá e Petit Chapin, nomes de vinhos nacionais afrancesados por ele em sua fleuma britânica.

Por ora, nesse meio tempo, arrumo minhas moscas. Mas são moscas de pegar trutas. Bem diferente daquelas que picaram o presidente e sua eminência parda de Passa Quatro, Minas Gerais, querendo um mandato de seis anos e fazendo já campanhas sub-reptícias pela reeleição.

Ajeito também minhas varas, sem deixar de pensar em como elas teriam outra utilidade sendo vergastadas em costas de alguns deputados e senadores, preocupados apenas com esforços concentrados que lhes dobram o salário e acabam nada votando.

É maldade, o sei, e não cabe a um decente jornalista pensar, enquanto desembaraço as linhas de pesca, imaginá-las no pescoço de políticos que desviam verbas de merenda escolar e do Fome Zero, dependurados em árvores ressequidas da caatinga.

Agradeço aos céus não ter morrido afogado em muitas das enchentes de São Paulo e ter escapado de balas perdidas de traficantes em guerra por pontos de vendas de drogas no Rio de Janeiro.

Acendi uma vela de sete dias pelo motor da Kombi verde abacate, comprada de segunda mão no Ceasa – e que me carrega por todo o Brasil a serviço – não ter fundido com a gasolina adulterada vendida nos postos de combustíveis.

Rezei um terço, junto com a Mary Ann, por não ter sido vítima de um seqüestro relâmpago, apertado dentro de um porta-malas.

Vamos para um outro ano de viagens e registros não tão sérios da vida política brasileira com a minha Smith-Corona 1956 revigorada.

E tudo continuará como antes, no país de Sanches, imigrante espanhol que corta meus cabelos numa barbearia da Rua Direita, em São Paulo.


* Stan O. Laurel teve no ano que passou oito de seus amigos brasileiros seqüestrados, assaltados por meliantes ou pelo imposto de renda, abordados por empresários corruptos, agredidos por policiais e cinco deles atropelados por motoqueiros. Ainda assim, garante que continuará visitando o país anualmente, tentando encontrar o melhor que ele ainda pode oferecer.