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Se
pensarem que vou fazer um balanço do ano que passou, como
todos fazem, estão muito enganados.
Tenho em mim que 2004 foi ruim porque não tive tempo de
pescar trutas nos riachos frios de Iowa.
Se não sabem o que isso significa, não me importo,
com o devido respeito pelo leitor.
Estive todo o tempo em viagens sucessivas ao Brasil, que mereceu
boas e profundas análises em minha coluna semanal no Weekly
News, de Porkville, mesmo com meus leitores americanos achando
que sou um ficcionista e esse país não existe.
Minha Smith-Corona 1956 quase ferveu e até agora está
bamba em suas teclas, quase não dando conta de registrar
tudo o que se passou durante o segundo ano do governo Lula. Temi,
confesso, tê-la vigiada pelo Conselho Federal de Jornalismo,
felizmente sepultado pelo Congresso.
Descansará uns dias, embebida em óleo Singer e reapertada
com uma chave Phillips enquanto gozo de merecido descanso.
Resmas de sulfite A4 manuscritas ainda estão espalhadas
pela minha escrivaninha, mas será um deleite para minha
santa esposa Mary Ann arquivá-las e, quiçá,
num futuro próximo, reunidas em livro, infelizmente num
livro de humor.
Engordei como um porco, compensando a má comida servida
nos aviões, graças às feijoadas e ao tutu
com torresmo dos botecos brasileiros. Quase virei alcoólatra
na companhia do brasilianista inglês Kenneth Goodson, que
deu de beber vinho de garrafão Sang de Boá e Petit
Chapin, nomes de vinhos nacionais afrancesados por ele em sua
fleuma britânica.
Por ora, nesse meio tempo, arrumo minhas moscas. Mas são
moscas de pegar trutas. Bem diferente daquelas que picaram o presidente
e sua eminência parda de Passa Quatro, Minas Gerais, querendo
um mandato de seis anos e fazendo já campanhas sub-reptícias
pela reeleição.
Ajeito também minhas varas, sem deixar de pensar em como
elas teriam outra utilidade sendo vergastadas em costas de alguns
deputados e senadores, preocupados apenas com esforços
concentrados que lhes dobram o salário e acabam nada votando.
É maldade, o sei, e não cabe a um decente jornalista
pensar, enquanto desembaraço as linhas de pesca, imaginá-las
no pescoço de políticos que desviam verbas de merenda
escolar e do Fome Zero, dependurados em árvores ressequidas
da caatinga.
Agradeço aos céus não ter morrido afogado
em muitas das enchentes de São Paulo e ter escapado de
balas perdidas de traficantes em guerra por pontos de vendas de
drogas no Rio de Janeiro.
Acendi uma vela de sete dias pelo motor da Kombi verde abacate,
comprada de segunda mão no Ceasa – e que me carrega
por todo o Brasil a serviço – não ter fundido
com a gasolina adulterada vendida nos postos de combustíveis.
Rezei um terço, junto com a Mary Ann, por não ter
sido vítima de um seqüestro relâmpago, apertado
dentro de um porta-malas.
Vamos para um outro ano de viagens e registros não tão
sérios da vida política brasileira com a minha Smith-Corona
1956 revigorada.
E tudo continuará como antes, no país de Sanches,
imigrante espanhol que corta meus cabelos numa barbearia da Rua
Direita, em São Paulo.
*
Stan O. Laurel teve no ano que passou oito
de seus amigos brasileiros seqüestrados, assaltados por meliantes
ou pelo imposto de renda, abordados por empresários corruptos,
agredidos por policiais e cinco deles atropelados por motoqueiros.
Ainda assim, garante que continuará visitando o país
anualmente, tentando encontrar o melhor que ele ainda pode oferecer. |