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Correspondente
na Europa
Aqui,
na Europa, a reeleição de Bush, às vésperas
do Natal, é vista pela opinião pública de
diversos países como um Papai Noel que, ao invés
de distribuir presentes para as crianças, procura atrair
jovens, para alistá-los em futuras invasões, tão
logo, no linguajar dos americanos, o Iraque volte à vida
democrática, após as eleições, previstas
para janeiro.
A revista “Panorama delle Alpi”, editada em Lugano,
traz, em sua edição de novembro, enorme e chatíssimo
artigo, assinado por Duílio Barzin, comparando os problemas
de Bush, em seu segundo mandato, aos 12 trabalhos de Hércules,
aquele herói mitológico dos gregos.
Vou poupar os leitores do Sacolão dos
argumentos de Barzin, que, curiosamente, lembram ensaios do “Cahiers
du Cinéma” sobre diretores americanos que filmaram
a conquista do Oeste. O ilustrador, que se assina “Habacuc”,
o velhinho tesoureiro de “O Incrível Exército
de Brancaleone”, de Mario Monicelli, foi mais feliz: faz
uma paródia entre Bush e o lendário Bat Masterson.
Aquele do “No velho Oeste ele nasceu”... “Habacuc”
mostra Bush cavalgando fogoso corcel branco, sustentando-se apenas
nas patas traseiras, como o cavalinho vermelho da Ferrari, preparando
o laço para domar um potro chucro. De chapéu de
couro, no velho estilo caubói texano, Bush grita: “Aiooooooô,
Silver”.
Atrás de Bush, na caricatura de “Habacuc”,
estão: Berlusconi, dando uma de “crooner” (ele
é metido a cantor de cabaré); Tony Blair, tocando
banjo; Arnold Schwarzenegger, na guitarra, à moda de Elvis
Presley; e Vladimir Putin, na balalaica.
Berlusconi faz dueto com Schwarzenegger. À esquerda deles,
Tony Blair e, à direita, Putin. O que eles cantam? “No
Velho Oeste ele nasceu e entre bravos (que preferiram laçar
cavalos a ir para o Vietnã) se criou. Seu nome em lenda
se tornou, Bush Masterson, Bush Masterson”.
Depois, vem a segunda parte. “Sempre elegante (discutível
porque nem todos gostam da moda” stupid chic “) e
cordial” (o pai do Chico, o historiador Sergio Buarque de
Holanda, com certeza, discordaria disso, já que, para ele,
apenas as famílias quatrocentonas, descendentes de portugueses
ou de espanhóis, é que eram cordiais).
E finaliza: “Sempre o amigo mais leal (o pessoal da Haliburton
e os xeques da Arábia Saudita, que nadam em petróleo,
concordam com isso, em gênero, número e grau); foi
da justiça um defensor (aí, a coisa pega mesmo,
porque, ao menos a metade dos Estados Unidos e do resto do mundo,
não concordam com isso), Bush Masterson, Bush Masterson”.
Parece que, pelo menos por aqui, os chargistas estão com
tudo. Na edição semanal do “Le Monde”,
que se seguiu à eleição americana, Bush é
apresentado, no traço de Gustave Monet, como Papai Noel
guiando um trenó, puxado por três renas: a primeira
é a cara do Donald Rumsfeld; a segunda é o Colin
Powell e a terceira é a Condoleeza Rice.
Vestido de bom velhinho, Bush consulta uma extensa lista de presentes,
dizendo para as três renas: “Nada para a Alemanha,
nada para a França e nada para a Espanha”.
O chargista do “Der Spiegel”, que se assina “Helmuth
Fritz”, foi mais sucinto: apresenta Gerard Schroeder, o
primeiro-ministro alemão, tirando a sorte num velho realejo.
O periquito puxa um bilhete no qual se lê: “Ter ou
não ter petróleo, eis a questão”.
*
Werner Ghestaldo é correspondente do
Sacolão em Lugano, na Suíça.
Colabora regularmente com diversos periódicos suíços,
italianos e austríacos. Na década de 70, quando
morava em São Paulo, lançou o Movimento pela Libertação
dos Anões de Jardins. |