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Não
gosto muito dessa história do governo se meter na vida
da gente em coisas que podemos resolver sozinhas. Esse pessoal
está sempre inventando para faturar algum dinheiro e incomodar
quem está quieto no seu canto, tentando sobreviver neste
país, o que não anda nada fácil.
Meu advogado, Dr. Palhares, um doce de pessoa, apesar da profissão,
me explicou outro dia mais uma lei que o pessoal do governo está
querendo jogar na gente. Eu quero dizer nós, que vivemos
na noite, pelas calçadas da vida, procurando faturar pra
pagar as contas.
Ele me explicou que é um projeto de lei que vai criar a
profissão de prostituta e prostituto (esse eu não
conhecia, mas existe) e parece que o nome oficial da nossa ocupação
vai ser”trabalhador da sexualidade”. Dizem que vão
incluir todo mundo no projeto, a gente, dançarino e dançarina,
atriz e ator de filme pornográfico, garçonete e
garçom de boates,massagistas e até gerente de lugar
de prostituição.
O Dr. Palhares me disse que se for aprovado, o projeto vai trazer
vantagem para todos nós. Sei não. Tem muita coisa
que não me agrada, e digo isso porque já andei conversando
com minhas amigas e amigos e eles acham que tem algo “furado”
no tal projeto. O governo quer que a gente se registre oficialmente
e se inscreva na delegacia do trabalho e mais outras exigências,
e tudo para ganhar carteirinha não sei de que e arranjar
um plano de saúde legal.
Não sei quanto o resto de minha turma, mas eu digo não.
Ganho um bom dinheiro por mês, meu plano de saúde
cobre quase tudo, e tenho vários e queridos médicos
como clientes,sem falar em muitas outras vantagens bem próprias
da nossa profissão.
Confesso que ainda não me explicaram todo o projeto, de
ponta a ponta, mas acho que estou fora. Sou daquelas que acham,
como a minha querida amiga Valeria Bonevile, que as coisas e a
gente do governo só funcionam, no nosso ramo, “por
fora”, sem nada oficial, se é que me entendem.
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