Folguedos de paróquia

Houve abalos no alto clero, com o cardeal Dirceu se recolhendo em copas depois que vieram à tona estripulias de alguns titulares de paróquias suspeitas. Não houve nenhum caso de pedofilia, mas atos que fariam corar uma senhora paroquiana das mais longínquas dioceses. O cardeal nunca foi mais o mesmo depois do caso do abade Waldomiro, seu colega desde o tempo de seminário.

Continua, contudo, no poder, imerso em volteios de incenso e auras de silêncio que calam e fazem calar auxiliares mais próximos.

A bula papal que restringia a liberdade de imprensa quase caiu em esquecimento, mas continua como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça de incautos atrevidos, nas mãos de cardeais votantes.

Depois do caso do correspondente do New York Times, o papa Nula não treme mais. Recusa-se, porém, a usar a mitra, colocando em sua santa cabeça bonés de todas as ideologias. Menos o quepe das Cruzadas, que não serve e lhe causa ojeriza, mormente agora que querem abrir o sepulcro da Santa Inquisição, com os horrores dos calabouços de antanho.

Há debandada geral entre os cardeais, que saem escandalizados com o desvio dos dízimos para a manutenção de paróquias do Norte, onde a troca de favores resulta em votos para o bom andamento do clero. Frei Berto se retira para escrever homilias e o padre Cotcho achou que era muita água benta derramada em vão, escafedendo-se com honra e louvor.

Bispados são disputados a tapa pelos clérigos de outras paróquias. O bispo Zarney negocia uma paróquia estratégica para a filha e outros párocos do partido não se vexam em declarar que são franciscanos de carteirinha no “é dando que se recebe”.

E, de bulas em bulas provisórias, nosso papa Nula entrava o Santo Colegiado, agravado pelo fato de, que, lá, os bispos pouco comparecem, ocupados que estão em festas de louvores a Santo Antônio, São João e São Pedro, como figurantes na representação da “Paixão de Cristo”, procissões quilométricas em adoração ao Padim Ciço, travestidos em bois-bumbás, se rebolando em micaretas e outras festas carnais, que ninguém é de ferro.

De invasão em invasão, o padre vermelho Sfédile insufla o campesinato. Quer o “maná” já. Coisa de sete virgens esperando no Paraíso é coisa de fundamentalista. Adentra terras produtivas e improdutivas com a desenvoltura de um cruzado ateu praticante.

Além do que, a atenção de todo o mundo se volta para o enriquecimento de urânio brasileiro, por mais que o papa Nula afirme que nunca fabricará nenhuma bomba e nem quer mandar ninguém mais cedo para o céu, estando mais preocupado no momento em pagar as indulgências gentilmente cedidas pelo FMI.

O Cristo Redentor continua de braços abertos sobre a Guanabara, com metade do orçamento comprometido para a feitura de um colete de aço gigantesco contra balas perdidas do crime organizado, para que continue a dar bênçãos ao Bispo Menininho.

E, no ano que se finda, atendo aos acontecimentos da paróquia, como brasilianista e correspondente do Weekly News, de Iowa, farei questão de comparecer à Missa do Galo, registrando, por certo, a ausência do padre Nuda Mendonça, hoje avesso a qualquer tipo de galináceo.


* Stan O. Laurel, católico liberal e não-invasivo, ouviu a história acima de um correspondente americano no Brasil e decidiu divulgá-la neste artigo. Fez aqui e ali algumas adaptações, e mesmo omissões, para não comprometer os mais comprometidos e temendo também a possibilidade de ter sua entrada proibida em nosso país.