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Fiquei
surpreso ao examinar relatórios do Banco Central do Brasil,
dando conta do espetacular salto das exportações,
que deverão fechar o ano na casa dos US$ 32 bilhões.
Nada mal. Mas o que me chamou a atenção foi a rubrica
sobre transferência de jogadores brasileiros para o exterior.
Ao longo de 2004, nada menos do que 137 jogadores brasileiros
tiveram suas vendas para fora do País registradas no BCB.
O valor pago pela “exportação” desses
futuros craques (nem todos se dão bem, é claro),
em geral na faixa etária entre 14 e 18 anos, foi de quase
cem milhões de dólares.
Perguntei a meu mordomo James (ainda não inventaram nome
melhor para um mordomo inglês), que sabe tudo sobre futebol
brasileiro, e ele me disse que esse êxodo de talentos deve-se
exclusivamente à Lei Pelé.
Pouco entendo do assunto, mas logo quis saber dele quem havia
sido o introdutor do futebol “association”, aquele
que se joga com os pés, diferentemente de seus dois outros
irmãos gêmeos, o rúgbi e o futebol americano.
“Foi um conterrâneo nosso”, respondeu, eufórico:
“Charles Miller”.
Ele percebeu minha surpresa e acrescentou: “Nosso conterrâneo
tem uma praça enorme, em sua homenagem, em São Paulo,
que fica na entrada de um estádio de futebol, chamado Pacaembu”.
E, assumindo um ar de “scholar”, aconselhou-me a ler
dois livros: “Memórias Sentimentais da São
Paulo Railway”, escritas pelo neto de Charles Miller, que
mantém o nome do avô; e “Brás, Bexiga
e Barra Funda”, de Antônio de Alcântara Machado.
O “popular esporte bretão”, que é como
locutores esportivos de antanho se referiam ao futebol, segundo
Charles Miller, era considerado de elite. Na década de
20, seus praticantes eram engenheiros e funcionários graduados
de empresas inglesas, americanas ou canadenses com filiais em
São Paulo.
O Paulistano e o Germânia (hoje Pinheiros) eram honrosas
exceções de extensa lista de clubes ingleses, ou,
ao menos, com nomes em inglês: São Paulo Athletic,
Mackenzie (fundado por americanos, mas também freqüentado
por britânicos), São Paulo Railway, Light and Power,
Nova Álbion, Parada Inglesa, New Old Boys etc.
A popularização do futebol, em São Paulo,
teve início na segunda metade da década de 20. Em
1927, Alcântara Machado publicou “Brás, Bexiga
e Barra Funda”, com o subtítulo de “Novelas
Paulistanas”. E foi nesse pequeno livro, “uma jóia
da literatura paulistana”, segundo Oswald de Andrade, que
encontrei o conto “Boys da Mooca vencem Madre Alix”.
A ação do conto de Alcântara Machado desenvolve-se
no ano de 1924. Com a nascente industrialização,
surgiram os primeiros clubes de várzea, formados por operários,
que, aos sábados e domingos, disputavam torneios, em improvisados
campos de futebol, ao longo das margens dos rios Tietê,
Tamanduateí e Pinheiros.
Talvez querendo imitar o Boca Juniors, clube mais popular da Argentina,
criado no início do século passado, em Buenos Aires,
operários da Mooca e do Brás fundaram, em 1920,
o Boys da Mooca, campeões de todos os torneios de várzea,
disputados daquele ano até 1924.
O futebol de elite - aquele praticado fora dos campos de várzea
- era dominado, nessa época, pelo poderoso Clube Atlético
Paulistano, cujo principal jogador era o lendário Friendreich,
filho de um alemão com uma lavadeira negra, que, segundo
a história, teria marcado mais de 1.500 gols ao longo da
carreira.
A súbita fama da equipe do Boys da Mooca incomodava um
pouco o Paulistano, que, obviamente, não poderia desafiá-lo,
em razão de os clubes pertencerem a ligas diferentes: uma
totalmente amadora e outra mais organizada e já semiprofissional.
Foi aí que surgiu a idéia de se lançar um
clube de várzea, rico, para acabar com a hegemonia dos
garotos da Mooca.
Nessa época, a maior parte do atual Jardim Paulistano,
que fica entre o bairro de Pinheiros e os outros três jardins:
Paulista, Europa e América, era inundada no verão,
pelas águas do rio Pinheiros. Portanto, apesar de já
ser um bairro chique, também tinha sua várzea.
Na parte alta do Jardim Paulistano, situava-se o Colégio
Madre Alix, dirigido por irmãs de uma congregação
francesa. A fundadora da ordem – madre Alix – teria
recebido a missão, em sonho, de sair pelo mundo, principalmente
o 3º e o 4º, para educar as elites.
O fascínio do esporte bretão não demorou
a contagiar funcionários, professores e alunos do Madre
Alix, que logo criaram sua equipe de futebol, e a inscreveram
para disputar torneios e campeonatos, organizados por ligas varzeanas
e amadoras.
Sempre que chegava a alguma final, o Madre Alix costumava ser
reforçado por jogadores reservas do Paulistano. Para burlar
a fiscalização das diversas ligas, todos os clubes
de elite mantinham jogadores treinando em clubes amadores, registrando-os
apenas quando eles adquiriam alguma experiência.
Em 1924, a fama do Madre Alix, uma espécie de filial do
Paulistano, se igualara à do Boys da Mooca. Estes ganhavam
todos os torneios disputados por clubes que jogavam em campos
situados às margens do Tietê e do Tamanduateí,
regiões que posteriormente formariam as atuais zonas Leste,
Centro e Norte da cidade. Por sua vez, os “alixcenses”
eram os campeões das atuais zonas Sul, Sudoeste e Oeste.
No dia 9 de julho de 1924, na presença do prefeito de São
Paulo, Joaquim Eugênio de Lima, representantes das principais
ligas amadoras de futebol acertaram a realização
de duas partidas entre as equipes do Boys da Mooca e do Madre
Alix.
Se houvesse dois empates ou uma vitória para cada lado,
haveria uma “negra” para o desempate. A equipe vencedora
seria proclamada a única campeã amadora de todas
as ligas da cidade.
As partidas foram marcadas para os dias 3 e 31 de outubro daquele
ano. Se necessária, a terceira partida seria disputada
no dia 15 de novembro. Caso ocorressem três empates, por
qualquer contagem, as duas equipes seriam consideradas campeãs.
Para mediar os jogos, foi convidado um árbitro inglês,
auxiliado por dois bandeirinhas, um argentino e outro uruguaio,
mais afeitos às regras e sutilezas do futebol.
Em setembro, os técnicos José Guerra, do Boys da
Mooca, cujo símbolo era um sabiá laranjeira; e Herta
Muricy, do Madre Alix, que tinha como escudo uma estrela vermelha
de cinco pontas, intensificaram os treinamentos, que passaram
a incluir exercícios de condicionamento físico.
Faltando menos de duas semanas para a primeira partida, correu
o boato de que o Madre Alix teria convidado, informalmente, o
técnico do River Plate, Lui Havre, para ensinar os jogadores
“alixcenses” a usar a até então arma
secreta dos clubes argentinos: a catimba, para irritar os adversários;
e, se necessário, jogadas violentas, longe do campo de
visão do juiz e dos bandeirinhas, para tumultuar o jogo,
quando fosse necessário.
Comentava-se também que o presidente da República
era torcedor fanático do Madre Alix e que viria, especialmente
do Rio de Janeiro, para assistir às duas partidas.
O primeiro jogo foi realizado no campo do Germânia. Diante
de um público estimado em 30 mil pessoas, recorde para
a época, a equipe do Boys da Mooca venceu por um a zero,
com um gol de cabeça, após cobrança de escanteio,
aos 25 minutos do segundo tempo, marcado pelo centroavante, um
tal de Guerardo Alcklin.
No dia 31 de outubro, 32 mil pessoas, espremidas “como sardinha
em lata”, na descrição de Alcântara
Machado, foram ao Parque Antártica, assistir à histórica
decisão. Após a derrota parcial por um a zero, o
Boys da Mooca viraram o jogo, com mais dois gols do artilheiro
Alcklin.
Depois dessa partida, o futebol paulistano e o brasileiro mudariam
radicalmente. Em 1930, o Paulistano fechou seu departamento de
futebol. Dois anos antes, o Madre Alix desmontara a sua equipe.
Daí em diante, os clubes populares do futebol paulistano,
que tiveram origem em bairros periféricos, ou evoluíram
de times de várzea, firmaram-se cada vez mais e tomaram
conta da cena esportiva.
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Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia
urbana por Oxford, e, em 1992, foi o técnico do glorioso
Leeds, de Gloucester, clube de futebol de botão, campeão
do mundo, em final disputada, no Rio de Janeiro, contra o Politeama**,
treinado por Chico Buarque de Holanda, que contava, dentre outros
jogadores, com Paulinho da Viola, Aldir Blanc, Toquinho e João
Bosco.
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O Politeama, em 1992, havia conquistado por cinco vezes consecutivas
o Campeonato Brasileiro de Futebol de Botão e, na época,
era considerado um time imbatível, como o Santos e o Real
Madrid, na década de 60.
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