De queijos e papoulas

Correspondente na Europa

Existe, hoje, na União Européia, vaga sensação de ressentimento contra os suíços e de receio em relação aos turcos. É que a população da antiga Helvécia já se recusou em duas oportunidades – a última delas, em 2001, por meio de plebiscito – a entrar para a Europa ampliada. Ao contrário, os descendentes dos bizantinos anseiam pelo momento de, finalmente, fazer parte dessa enorme “salada de frutas” étnica, que é a Europa dos 25.

Curiosamente, os suíços – um dos povos mais ricos do mundo – estão pagando alto preço por tal recusa, já que sua riqueza vem diminuindo durante as duas últimas décadas. Esse fato é atribuído às barreiras que impedem a livre circulação de mercadorias e de capitais entre o pequeno território onde, em priscas eras, Guilherme Tell costumava flechar incautos, e o restante da Europa.

A Suíça não está sozinha ao esnobar a Europa comunitária. A Noruega também se recusa a entrar para o clube dos 25. Mas com uma diferença em relação aos suíços: os escandinavos têm, em parceria com os britânicos, o petróleo do Mar do Norte. Enquanto tiverem o “ouro negro” para vender poderão ignorar os europeus comunitários. Portanto, a situação dos criadores do fondue é bem mais incômoda.

Por sua vez, a Turquia – para surpresa de europeus, americanos e talvez até deles próprios – é um dos novos ricos da Ásia Menor. A antiga Bizâncio abastece toda a Europa Ocidental de comida (trigo, aveia, cevada, lentilhas, ervilhas e favas), além de damascos frescos ou secos, figos idem, pistache, nozes, castanhas, avelãs, amêndoas e frutas cristalizadas, enfim, tudo aquilo que vocês, aí no Brasil, chamam de artigos natalinos.

À França, o país mais culturalmente agrícola dos 25, e que produz idênticos produtos, revolta a idéia de, no futuro, ter de competir com os turcos na disputa do rico e imenso mercado agrícola europeu. Por isso, o poderoso lobby de seus orgulhosos agricultores tem conseguido até agora adiar sine die a entrada da Turquia na União Européia.

Apesar de todas as reformas já feitas pelo governo turco, dentre elas, a abolição da pena de morte, a previsão mais otimista é de que a Turquia não venha a fazer parte integrante da União Européia – e ainda assim com algumas restrições – antes de 2020. E isso se europeus ou turcos não mudarem de idéia.

Outro país que se opõe tenazmente à concessão de passaporte europeu aos turcos é a Grécia. “Non fidarsi mai dai turchi”, recomenda antigo e popular provérbio italiano, que pode ser traduzido por “Jamais confie num turco”.

Os gregos não levaram a sério a advertência contida nesse provérbio e pagaram caro por isso. Tiveram Helena, rainha de Esparta, raptada pelos troianos, tataravôs dos turcos; e, na década de 80, parte da ilha de Chipre (até então de língua grega e religião cristã ortodoxa) invadida pelos turcos modernos.

Outra coisa que incomoda europeus, à exceção dos britânicos, é o fato de a Turquia moderna ter sido, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, fiel aliada dos Estados Unidos.

Existe, contudo, outra razão, não mencionada nas conversações oficiais, para explicar o medo atávico e inconsciente que europeus têm dos turcos: trata-se das plantações de papoula, das quais se extraem o ópio e a heroína; e de cânhamo, do qual se extrai o haxixe.

Na década de 70, o governo Nixon investiu milhões de dólares na agricultura turca, numa frustrada tentativa de substituir as plantações de papoula e de cânhamo por outras culturas.

Europeus - como de resto todos os humanos - só querem as coisas boas da vida: petróleo e bacalhau noruegueses; queijos, chocolates e investimentos suíços; figos, nozes e damascos turcos. Mas tremem de medo ao imaginar a Turquia abastecendo a Europa de ópio, heroína e haxixe, por Istambul e o Estreito de Bósforo.

A classe média européia tem pesadelos só de imaginar a nova “rota da seda”, colocando à disposição de seus ricos e entediados filhos, saborosos damascos, figos, amêndoas e avelãs, recheados de ópio, heroína e haxixe.


* Werner Ghestaldo é jornalista, apátrida, radicado na Suíça. Tem diversos artigos e ensaios publicados em periódicos italianos, suíços e austríacos, dentre eles, “O Ouro da Papoula”, “O Alquimista do Rei Midas” (1), e “Papai Noel, Um Turco Confiável” (2).

(1) Para quem não se lembra, o mítico rei Midas (aquele que tinha orelhas de burro e que transformava em ouro tudo o que tocava) viveu no século 7º antes de era cristã, na região conhecida na época como Frigia, que fica ao Norte do atual território turco.

(2) O mito do Papai Noel teve origem na vida de São Nicolau, um bispo católico turco, posteriormente canonizado pela Igreja Romana, que gostava de dar presentes aos pobres.