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Muita
gente aí em São Paulo já deve ter ouvido
a expressão “O Brasil será a cuíca
do mundo”. Poucos, contudo, sabem explicar a sua origem.
Para os desmemoriados de plantão, aqui vai a história,
ou melhor, a lenda. Um ex-ministro de Getúlio Vargas, chamado
Benedito Valadares, tinha fama de “atropelar” algumas
palavras mais difíceis, que seus assessores – não
se sabe se por birra ou para mostrar falsa erudição
- teimavam em colocar em seus discursos.
O público que por educação tinha de aturar
os arroubos de linguagem do ex-ministro de Vargas costumava ignorar
os atentados à língua. Mas, em certa ocasião,
isso não foi possível. O discurso em questão
falava do potencial agrícola do País, que, diga-se
a bem da verdade, se for relido, hoje, acabará soando como
uma auspiciosa profecia. Lá pelas tantas, o texto que Valadares
lia dizia que, em pouco tempo, “o Brasil tornar-se-ia o
celeiro da América do Sul e quiçá do mundo”.
O pobre Valadares jamais ouvira nem lera a palavra “quiçá”.
Parou na América do Sul, raciocinou rapidamente e concluiu
que seus assessores haviam cometido um erro. Tratava-se agora
(tudo isso, leitores, aconteceu numa fração de segundos)
de encontrar o termo correto para dar sentido à palavra
“quiçá”. A única de que se lembrou
e que fazia algum sentido era “cuíca”.
Encheu-se de coragem, respirou fundo, retornou ao começo
da frase e, com mais ênfase do que da primeira vez, acrescentou,
cheio de orgulho: “O Brasil, meus senhores, será
o celeiro da América (desta vez ampliou a abrangência
geográfica para o continente) e a cuíca do mundo”.
Obviamente, a platéia não se conteve e explodiu
numa sonora gargalhada.
Esse episódio deu origem à expressão: “Uai,
será o Benedito?” Valadares era mineiro, daí
o “uai”.
Sem querer, na sua santa ingenuidade (e ignorância também),
o ex-ministro de Getúlio acabara de fazer duas profecias,
que se revelariam verdadeiras nas décadas que se seguiram
aos anos 40: o estrondoso sucesso do agronegócio e do carnaval.
Afinal, que melhor instrumento para simbolizar o carnaval do que
a cuíca?
Fiquei sabendo dessa história aqui, em Londres, ao participar
da inauguração de uma mostra de cinema, teatro e
literatura, promovida pelo Itamaraty, com apoio da BBC. Paralelamente,
realizou-se também, pela primeira vez por aqui, a Semana
Brasileira de Autores de Histórias em Quadrinhos.
Confesso ter ficado impressionado com os autores brasileiros.
Um deles, que se assina Euclides Sertanejo, óbvia alusão
a Antônio Conselheiro, o fanático líder de
Canudos, chamou a atenção da crítica e do
público locais com uma história, em estilo literatura
de cordel, intitulada “De Gegê a Feagacê”.
Explico: “Gegê” era o apelido de Getúlio
Vargas e “Feagacê” é como os nordestinos
pronunciam FHC (de Fernando Henrique Cardoso).
Em resumo, o autor pergunta a algumas personalidades históricas
portuguesas e brasileiras se fariam tudo de novo. Eis algumas
respostas: Dom João 6º, por exemplo, disse que se
soubesse o que iria acontecer após sua fuga para o Brasil
teria preferido enfrentar Napoleão. Seu neto, o imperador
Dom Pedro 2º, declarou-se republicano convicto. Ao contrário
do marechal Deodoro, que se manteve monarquista.
Getúlio, para surpresa e indignação dos gaúchos,
declarou que faria tudo de novo, com duas ressalvas: gostaria
de ter nascido em São Paulo e de ter enviado Filinto Muller,
seu chefe de polícia, no período do Estado Novo,
bem como Gregório, misto de mordomo e chefe da sua segurança
pessoal, para a KGB soviética.
As surpresas não param por aí. O ex-presidente Jânio
Quadros, num aparente acesso de arrependimento, revelou que as
famosas forças ocultas, que teriam forçado a sua
renúncia, jamais existiram. Aplaudiu o uso do biquíni
pelas brasileiras (que ele proibira) e do fio dental. Quanto às
famosas rinhas (brigas de galo), reconheceu ter feito bobagem
ao proibi-las.
Sugiro a vocês, aí no Brasil, que localizem o autor
da história – o Euclides Sertanejo – para saber
dele se o ex-presidente, enigmático como de costume, não
estaria tentando, por antecipação, livrar a cara
do marqueteiro e guru do PT, Duda Mendonça.
Outro ex-presidente, Juscelino Kubitschek (o JK), criador de Brasília,
frustrou os orgulhosos brasilienses (enorme legião de Boscos
e Juscelinos, que nasceram no Distrito Federal, de 1960 até
hoje), ao dizer que se pudesse voltar mudaria a Capital para o
sertão do Piauí.
E quanto a Feagacê? Bem, na história em quadrinhos,
estilo cordel, de Euclides Sertanejo, ele aparece ao lado do presidente
Lula, ambos caracterizados como violeiros nordestinos, com chapéu
de cangaceiro e tudo, cantando emboladas. Um dizendo: “Esqueçam
o que eu escrevi” e o outro: “Esqueçam o que
eu prometi”.
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Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D.
em Antropologia Urbana por Oxford e autor de diversos ensaios
históricos, dentre eles, “Dom Sebastião Era
Republicano”, “Sapo Transgênico Não Vira
Príncipe”, e “A Cuíca de Antônio
Conselheiro”.
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