Pobre Terceiro
Mundo, pobre Brasil!

Vaniteux, França- O desabafo do título acima é o meu também, e do brasileiro em geral, cujo acesso à cultura cinematográfica, a verdadeira, está cada vez mais restrito, bloqueado pelas forças poderosas e aparentemente indestrutíveis da máfia de Hollywood. Se o nosso amante de cinema tomasse conhecimento do imenso e crescente número de filmes alternativos de outros países que não chegam e nunca chegarão ao mercado exibidor brasileiro, ele certamente, primeiro se revoltaria, depois deveria gritar a plenos pulmões: “Hollywood, tire seus grilhões das nossas salas exibidoras! Deixe-nos assistir a tudo, de todos os países!”

Perdoem o desabafo, caros leitores, mas a indignação aumentou durante a minha cobertura do Festival Internacional do Filme Culto de Vaniteux, nesta linda e civilizada cidade do interior da França. Aproveito para agradecer ao gentil convite do presidente do festival, Paul-Gerard Perroquet, que me levou a esta maravilhosa descoberta de um cinema de exceção.

Para que o meu leitor possa imaginar do que estou falando, basta isto: foram exibidos 243 filmes de 67 países (inclusive 202 da cada vez mais decadente Hollywood!), cada um mais emocionante que o outro. Que riqueza de forma e conteúdo! Bendito cinema independente e alternativo, que se renova a cada dia, com tantos talentos! Quanta surpresa, uma após outra!

Imagine meu espanto, e o de 184 outros críticos internacionais presentes, quando o arrebatador drama “Aris”, da Indonésia, foi aplaudido de pé por 97 extasiados espectadores, e durante 18 minutos! A surpresa maior (e minha vergonha) é que nunca ouvi falar de seu diretor, Ikan Laut Asam, de apenas 19 anos, cuja linguagem e ousadia lembram o Orson Welles de “Cidadão Kane”! Só que, claro, muito mais inovador e revolucionário. E agora pergunto: quando “Aris” seria exibido no Brasil? Jamais, claro.

E quando será exibido por aqui o contundente drama turco “Pancar”,versão ousada de “A Gata Borralheira”? Ou o maravilhoso iraniano “Zaytoun”? Ou o servo-croata “Voda Za Usta”, que deixaria até mesmo Tolstoi atônito com a maestria de seu diretor na genial adaptação minimalista de “Guerra e Paz”? Nunca, nunca, nunca.

É uma triste constatação, a de que essas obras-primas do Terceiro Mundo jamais chegarão ao público brasileiro. Durante os 48 dias que durou o festival de Vaniteux, participei de uma verdadeira maratona, quando consegui assistir a 135 filmes, cada um mais eletrizante que o outro. Embora de coração partido porque não poderei partilhar meu entusiasmo com o público brasileiro, que não terá acesso a essas maravilhas da cinematografia alternativa. Nas próximas colunas, pretendo comentar em detalhe, um por um, os 243 filmes exibidos no festival.