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Derrotados
confessam
que apelaram para tudo e todos na última eleição
Por
Carlos Puzzo, Frida Leckerbissen,
Emílio Tramposo e correpondentes
Acreditando
mais no esotérico e nas crendices e menos em si próprios
e na convicção, inocência ou ignorância
do eleitor, muitos candidatos a prefeito em todo o Brasil apelaram
para tudo e todos para se elegerem. Pediram apoio a Deus, ao diabo,
santos, pais-de-santo, caboclos, crendices, amuletos e o que mais
pudesse ajudá-los. Em várias capitais e em centenas
de cidades muitos se consideravam já eleitos com suas fórmulas
mágicas. Os resultados das urnas, porém, foram uma
decepção e a derrota, inevitável para a maioria.Enquanto
os dois rivais mais votados disputaram no fim de outubro o segundo
turno em 44 cidades do Brasil, os derrotados, sobreviventes e
renitentes preparam agora uma nova batalha, a das próximas
eleições, qualquer que seja o cargo.
Marcos
Alberto Grossolano, conhecido como “Marquinhos Caipirinha”,
teve no seu reduto eleitoral, na Vila Odair, zona oeste da capital
paulista, apenas 38 votos. Ele afirma que seguiu à risca
o conselho do sogro sobre uma fórmula infalível
para ser eleito: acender todos os dias, à meia-noite, um
palito de incenso e aspirá-lo fundo quatro vezes durante
15 dias antes do dia da votação.
Não só foi um dos últimos colocados como,
no quinto dia, sofreu uma intoxicação e até
hoje não recuperou o olfato, por causa do cheiro forte
do incenso.
O candidato a prefeito Nerlinei Pereira, de 45 anos, o “Nelinho
da Oficina”, durante toda a sua campanha, num bairro operário
do Rio, não largou um amuleto em forma de jaguatirica,
que ganhou de um índio do Amazonas.
"O homem me disse que se eu esfregasse a jaguatirica todo
dia no lado esquerdo da cabeça meu sonho seria realizado",
garante Nerlinei. “Esfreguei esse troço todo dia
por mais de um mês. Não consegui me eleger e até
hoje minha cabeça está doendo, de tanto esfregar.
Sem falar que não nasceu mais cabelo no lugar".
Deus não ajudou
Chico
“Arroba” Venturini, que disputou, sem sucesso, a prefeitura
de Belo Horizonte,diz que apelou para uma crença popular
em busca da eleição. "Durante três meses,
comi lentilha, nhoque, canjiquinha e milho verde, após
a meia-noite, para dar sorte, fiz de tudo para ter sucesso."
Segundo os últimos resultados, “Arroba” chegou
em 19º lugar e pagou também outro preço alto:
está 25 quilos mais gordo.
O barbeiro Juvenal dos Montes, cujo nome de campanha foi seu apelido,
Zé Bigodeira, garantiu em seus comícios, em Três
Lagoas, Mato Grosso do Sul, que já estava eleito prefeito
da cidade. Um pai-de-santo lhe disse que, se deixasse crescer
o bigode durante um ano, não teria dúvida nenhuma
que chegaria na frente dos 13 concorrentes. Amargando agora a
derrota e o 7º lugar, Juvenal se consola com a popularidade
que ganhou com o grande bigode, que não pretende cortar
e que se tornou ótima promoção para a sua
barbearia, que vive cheia.
Por sua vez, Jesus Carlos Galhardo, que tentou a Prefeitura em
Porto Alegre, apelou para a religiosidade em seu reduto na zona
leste. "Se Deus está com Galhardo, quem pode estar
contra?", foi seu slogan junto ao eleitorado. Mesmo com "cabo
eleitoral" tão especial, não conseguiu se eleger
e teve uma das votações mais inexpressivas em seu
bairro: 32 votos. Apesar da derrota, Galhardo não perdeu
o humor e, conformado, explica: "Pelo jeito, nem Deus estava
comigo".
Calcinha
e padrinhos
Maria
Geralda Anunciação, candidata à prefeitura
de Recife, apoiou-se em outra crença, esta bem pessoal:
usou calcinha roxa e meias pretas sempre que ia aos comícios.
Ela garante que o espírito de sua falecida avó,
bailarina no Rio de Janeiro na década de 20, lhe apareceu
uma noite, na véspera da eleição, e afirmou
que, se a neta usasse as duas durante um mês, seria facilmente
eleita. Após ficar entre as últimas colocadas, Anunciação
confessa que não perdeu a confiança em sua popularidade
no bairro, mas, sobre a história da avó, diz entre
os dentes: "Ela devia ser uma maluca, dançando para
os homens da época com meias pretas e calcinha roxa".
Gabriel Zopenco, candidato a prefeito de Morro Agudo do Oeste,no
interior do Paraná, conta que ia diariamente ao cemitério
local e beijava sete vezes o túmulo do mais popular prefeito
que a cidade já teve, José Juvenal Guano. O motivo
é que uma vidente local garantiu que ele seria eleito se
visitasse o túmulo todos os dias e o beijasse.
Zopenco perdeu a disputa para seu rival, o advogado Emílio
Boñiga, que, bem mais pragmático, pode ter resumido
a receita ideal e infalível para ganhar eleições,
não só em sua cidade como em qualquer lugar: "Quem
elege a gente são os amigos, padrinhos e uma boa verba
de campanha".
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