Caminhoneira diz que estradas ruins e políticos
são as maiores ameaças

Por Tatiane Vaiolo
Enviada especial ao Centro-Oeste

Kátia Aparecida Liebling, uma bela caminhoneira de 29 anos, que está na profissão há sete anos, percorre mais de cinco mil quilômetros por semana e enfrenta não poucos perigos diariamente nas estradas da região Centro-Oeste. Durante as longas viagens, ela gosta de ouvir no rádio do caminhão o noticiário político, conhece os problemas sociais brasileiros, tem gosto apurado para música e há anos é uma das líderes de uma campanha para tentar sensibilizar os políticos para os estado lastimável das estradas por onde passa.

Bastante popular na região, Kátia costuma levar na cabine pacotes de gêneros alimentícios, que joga pela janela do seu caminhão quando passa por lugarejos pobres. Já foi eleita duas vezes “Miss Caminhoneira” e três vezes “A mais bela caminhoneira do Oeste”, em concurso criado por uma emissora de Mato Grosso do Sul. Uma linda loura de olhos verdes, descendente de alemães, afirma que não tem dificuldade em afastar os paqueradores e conquistadores, que não são poucos e, para isso, dispõe de armas poderosas.Literalmente.

Ela conta que depois que o pai, também caminhoneiro, morreu, decidiu assumir o negócio e usar o belo caminhão que o velho lhe deixou, mas pretende abandonar a profissão assim que juntar um dinheiro.Seu sonho antigo é ser dentista, como o tio, que também foi caminhoneiro.

“Meu tio ganhou um bom dinheiro na época da safra e acabou se cansando dessa vida dura. Entrou pra faculdade e se formou depois de cinco anos e hoje tem um belo consultório em Cáceres. Daqui a alguns anos espero me tornar assistente dele”, revela.

Carga pesada

Kátia garante que por enquanto não pensa em namoro ou algo mais sério e o fato de ser uma moça muito bonita só de vez em quando lhe traz problemas. E quando tentam assediá-la, ela logo resolve o caso. Isso porque é famosa na região como ótima atiradora e já botou vários conquistadores para correr com uns tiros para o ar. Ela possui porte de arma e guarda na cabine de seu caminhão um 38 e uma escopeta, que usou uma vez para assustar um grupo de sem-terra que bloqueavam a estrada e a ameaçaram com enxadas e facões.

Kátia afirma que, de todas as ameaças que enfrenta, nenhuma se iguala ao estado lastimável das nossas estradas e ao político brasileiro. “Só quem é obrigado a andar pelas estradas do interior é que sabe o que a gente passa.Não há caminhão pra agüentar tanta coisa ruim. Onde estão os políticos pra consertar isso? Eles gastam tanto nosso dinheiro, por que não consertam as estradas? Ainda a semana passada fiz um frete no meu caminhão com uma tonelada de propaganda política, aqueles ‘santinhos’ e folhetos que prometem o céu e a terra para o pobre eleitor. Se eu não fosse uma mulher responsável, jogava toda a carga no lixo. Conheço o candidato, é um grande pilantra”.

Kátia diz que participou recentemente de várias comitivas que foram a prefeitos, deputados federais e até senadores pedir apoio para asfaltar estradas, aproveitando estas eleições.

“Claro que todos prometeram ajudar, mas eu teria que jantar com eles antes, sabe como é, a velha cantada de sempre. Esse tipo de coisa mostra bem o caráter desses políticos, que são ainda piores que as estradas por onde o corajoso caminhoneiro brasileiro é obrigado a andar”, ela finaliza.