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Correspondente
na Europa
Nas
montanhas suíças não há oliveiras.
No cartão postal das pacíficas aldeias alpinas,
vacas bem nutridas pastam, cães São Bernardo procuram
“náufragos” da neve, e funiculares (trenzinhos
aéreos iguais ao que leva turistas ao Pão de Açúcar,
aí, no Rio de Janeiro) fazem a ligação, de
40 em 40 minutos, de um pico do nada ao vale do lugar nenhum.
É pura monotonia, mas os endinheirados do mundo gostam,
sabe-se lá por que motivo. Charles Chaplin, o genial Carlitos,
que passou os últimos anos da vida em algum aprazível
lugarejo suíço, queixava-se para a mulher Oona,
enquanto esfregava as mãos, junto à lareira, da
solidão da paisagem. “Gostaria muito que alguma mosca
me lembrasse que estou vivo”.
“As únicas coisas vivas por aqui”, dizia Chaplin,
“são os cães São Bernardo”. “Você
quer dizer que nós estamos mortos, Charlie?” “Mortos,
não; mas congelados”.
Felizmente, além da Suíça alpina, gelada,
existem também as vibrantes cidades helvéticas,
Genebra, Basiléia, Berna, Zurique, Lugano, dentre outras,
que costumam fervilhar ao entardecer. Em algumas praças
públicas dessas cidades, chega a haver congestionamento
de pessoas e de bicicletas.
A tevê local noticiou, há duas semanas, que uma praça
de Genebra registrou a presença de 200 pessoas, entre pedestres
e ciclistas, num domingo à tarde.
Por falar em tevê, a volta dos atletas suíços,
que foram a Atenas disputar a olimpíada, nem sequer foi
registrada. A mídia esportiva local também não
deu muito espaço ao maior evento esportivo do planeta.
Acostumado a assistir carreatas e desfiles de ídolos esportivos,
quando morava em São Paulo, estranhei a omissão
da mídia. Perguntei a um amigo daqui a razão disso.
A resposta dele foi lacônica: “Os suíços
detestam olimpíadas”.
No dia seguinte, comprei a “Gazzetta dello Sport”,
de Milão, que é muito lida por aqui - fiquei sabendo
depois que os suíços que falam italiano adoram tudo
quanto é esporte – para me informar sobre as olimpíadas.
Aí entendi por que helvéticos, que falam alemão,
francês e romanche, detestam tanto esportes olímpicos.
Consultei o quadro geral de medalhas e, surpreso, constatei que
a Suíça obteve cinco medalhas (uma de ouro, uma
de prata e três de bronze), o que lhe deu o honroso 46º
lugar.
Pior: os alemães, que são o paradigma da maioria
dos suíços, ficaram em sexto na classificação
geral, com 47 medalhas (14 de ouro, 15 de prata e 18 de bronze);
franceses e italianos, com 31 medalhas, ficaram em sétimo
e oito lugares, respectivamente.
Áustria, em 27º lugar (com sete medalhas), e as recém-criadas
(antes faziam parte da ex-Iugoslávia) Croácia e
Eslovênia, que levaram para casa quatro medalhas cada, completam
a incômoda vizinhança dos herdeiros de Guilherme
Tell.
Mas o que mais incomoda mesmo os suíços são
duas coisas: embora seja a segunda nação mais rica
do planeta (a primeira é a Noruega), obteve a pior classificação
dentre os países desenvolvidos; além disso, muitos
subdesenvolvidos conseguiram classificações melhores.
À frente dos suíços ficaram: Quênia,
Chile, Marrocos, Argentina, Taiwan, Irã, Tailândia,
Jamaica, Turquia e - claro – o Brasil.
A explicação para tamanho fiasco talvez seja o fato
de não haver oliveiras, cujas folhas são usadas
para coroar os vencedores, na paisagem suíça.
(*)
Werner Ghestaldo é apátrida, radicado
na Suíça, após ter morado em São Paulo,
onde foi correspondente do “Il Sole – 24 Ore”,
jornal milanês especializado em economia e finanças. |