Mordaça na
Smith-Corona 1956? Nunca!

Nunca ninguém me chamou pelo alto-falante de nenhum aeroporto. Fui, sim, abordado pessoalmente várias vezes para dar explicações à alfândega e serviços de segurança sobre minha Smith-Corona 1956, em vários lugares do mundo.

Surpreendeu-me, sobremaneira, ouvir meu nome no aeroporto de Brasília, chamado a comparecer na sala da Polícia Federal.
Recebido por um funcionário de uniforme, notei outros – de várias cores – pendurados em cabides espalhados por todo o ambiente.
“O senhor é o brasilianista Stan O. Laurel, de Iowa, Estados Unidos?”, disse o agente.

“Sou, sim senhor”, respondi altivo e empertigado.

“As regras mudaram”, disse-me ele, sem levantar os olhos de um formulário em branco.

“Primeiramente, todos os jornalistas – inclusive os correspondentes estrangeiros – usarão uniforme no desempenho de sua função em território brasileiro”, continuou.

“Em segundo lugar, os senhores estão proibidos de fazer perguntas a qualquer autoridade ou funcionário público”, disse, com um sorriso de esgar. “Quem farão as perguntas agora serão as autoridades constituídas e, dependendo da resposta, o senhor poderá ser enfiado imediatamente num avião de volta à sua pátria.”

“Além do que, disse, farão o trabalho de pé, não podendo sentar-se em nenhuma hipótese. Café, chá e água estão terminantemente proibidos em qualquer entrevista jornalística.”

“Entendi tudo perfeitamente, mas posso eu fazer, por ora, umas perguntinhas?” disse eu.

“Totalmente, e por enquanto, às suas ordens”, respondeu o funcionário.

“Eu poderia saber se o jornalista vai usar aquele uniforme laranja?”

“São para jornalistas a favor do governo”, disse. “Eles apenas assinam matérias já prontas, enviadas pela assessoria de imprensa do Palácio.”

“E o marrom?”

“O marrom é para jornalistas da imprensa sensacionalista, fofocas e escândalos, desde que nada comprometa o Presidente e autoridades”.
“E aquele vermelho”, continuei.

“É para jornalistas do fogo-amigo, mas sob total controle. Profissionais do MST, dissidentes do PT e mais um ou dois comunistas. Terão suas matérias lidas antecipadamente pelo Conselho Federal de Jornalismo, antes da publicação”.

“Me adiantando, o uniforme verde-amarelo é para a imprensa a favor de tudo. Desde notícias sobre dinheiro enviado ao exterior, viagens particulares de autoridades com aviões da FAB e a cobertura do futebol de todos os sábados no campinho do Palácio do Alvorada. Terão antecipadamente fornecidos todos os desmentidos, inclusive boatos sobre a caipirinha, o chope e o leitão à pururuca, servido depois de cada pelada”, concluiu ele.

“Pelo visto, o meu será aquele lilás, com estrelas amarelas”, perguntei.

“Exatamente. O senhor poderá experimentá-lo atrás daquele biombo e estará livre para o cumprimento de suas funções profissionais”.

“Não só não o vestirei como volto imediatamente ao meu país. Calo minha boca apenas para não espantar minhas trutas nas pescarias em Iowa”, disse irado.

“E apenas lá faço meu serviço em pé, para lançar mais longe a linha do fly”, respondi e me retirei, batendo a porta.


(*) Stan O. Laurel, brasilianista, jornalista e apaixonado pelos ritmos afro-brasileiros, está entre os mais perseguidos pela censura e já teve nada menos que 13 máquinas de escrever confiscadas ou destruídas por governos em todo o mundo.Em 1956, quando o ditador de um país africano ameaçou confiscar sua Smith-Corona e calar sua voz, ele disse Basta! e encerrou suas viagens internacionais para a África.