A barbárie civilizada

Meu correspondente da USP, aí de São Paulo, telefonou-me, recentemente, alarmado, para me informar o assassinato em série de mendigos, no centro da cidade. “Cães de aluguel”, lamentou, “já deram início à barbárie civilizada”. “Aí, na Europa, vocês assistiram à limpeza étnica e religiosa; aqui, no 3º Mundo, nós, sempre um passo adiante, acabamos de inventar a limpeza social e etária”.

Quando será que começou a exclusão social, aí no Brasil? Para não cansar os leitores com pesquisas históricas, que sempre comprovam aquilo que todos já sabiam, vou me ater apenas à década de 60, quando o médico e geógrafo pernambucano, mais conhecido no exterior do que aí, Josué de Castro, previu, em seu livro “Geopolítica da Fome”, que, em algumas décadas, criar-se-ia, no País, uma geração de “homens gabirus”.

Para quem não sabe, o “homem gabiru”, previsto por Josué, seria pouco mais que um anão, mediria cerca de 1,50 metro e, em razão da desnutrição crônica, teria cérebro e neurônios afetados de forma irreversível. Ele acertou em cheio!

De acordo com dados oficiais que o governo brasileiro envia regularmente à ONU para a classificação anual do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), vivem aí cerca de 50 milhões de pessoas em absoluta exclusão social, oscilando entre a pobreza e a miséria.

Esses 50 milhões de miseráveis, ou cerca de 12 milhões de famílias, nada mais são do que aquela geração de homens e mulheres gabirus, adultos, que se reproduziram no decorrer das últimas quatro décadas.

A quarta parte desse contingente é constituída por pessoas, hoje, na faixa dos 60 anos, ou seja, próximos da aposentadoria. Mas, como nunca tiveram emprego fixo, com carteira assinada, na melhor das hipóteses, quando completarem 65 anos, se tudo der certo, receberão do INSS o equivalente a um salário mínimo, na época.

Mas daqui a três décadas, os 40 milhões restantes atingirão a idade da aposentadoria e, por não terem recolhido suas contribuições para os cofres do INSS durante o tempo mínimo previsto, terão direito, se houver recursos, claro, a receber o equivalente a um salário mínimo.

Ou seja, os 40 milhões de excluídos, que hoje sobrevivem na economia informal, vendendo de cigarros a CDs e DVDs piratas, além de sustentar a si mesmos e a seus filhos, terão de ajudar os pais, na velhice destes. E por aí vai.

Para interromper esse círculo vicioso, teriam de ser criados e mantidos cerca de 12 milhões de empregos estáveis. Com isso, pelo menos uma em cada grupo de quatro pessoas, pertencentes às 12 milhões de famílias carentes, seria beneficiada.

Além disso, para melhorar a qualidade de vida das futuras gerações de idosos, e não sobrecarregar o Estado em gastos crescentes com a saúde, não apenas de famílias carentes, o governo teria de começar já a investir em educação alimentar, esporte e lazer assistidos, desde o ensino básico. Mas, como se sabe, isso não é feito porque não rende votos.

Na Europa e nos Estados Unidos, obesidade, pressão alta e diabetes, doenças que eram quase exclusividade de pessoas na faixa acima de 60 anos, hoje, já estão atingindo crianças, em razão da praga do fast food, dos salgadinhos, dos refrigerantes e dos sanduíches, da tevê, dos videogames e da internet.

Nos países do 3º Mundo e nos mais pobres, o panorama não é diferente. Nas grandes cidades brasileiras, por exemplo, os homens, aos sábados, vão, com seus carros, até a padaria da esquina, onde passam a tarde inteira bebendo cerveja e comendo lingüiça frita na pinga, torresmo, bacon e pimenta.

As mulheres ficam em casa para preparar as refeições: arroz, feijão e mistura (lingüiça, ovos fritos, bisteca de porco etc.). Legumes, saladas e frutas, nem pensar. De sobremesa, bolos enormes – as crianças adoram, defendem-se as mães, lambendo os dedos, embebidos numa mistura de leite condensado com chantilly. À noite, pizzas, de preferência com coberturas bem gordurosas; cerveja para adultos, e guaraná ou coca-cola para as crianças.

Quando não há dinheiro para a pizza, lanche composto por café com leite, mais adoçado que coração de mãe, pão com manteiga ou requeijão. De sobremesa, a famosa dupla: uma fatia fina de queijo branco e outra de três dedos de goiabada cascão. Mais tarde, assistindo à tevê, pipoca bem salgada, com manteiga, bacon e pimenta.

No dia seguinte, domingo, se houver dinheiro, é dia de ir a uma churrascaria para o suculento rodízio à moda gaúcha. E tome cupim, costela e picanha, ladeada por dois dedos de gordura, não necessariamente nessa ordem. As crianças, claro, detestam carne. Comem batatas fritas, à espera da sobremesa.

Finalmente, para a alegria das mães e das crianças, chega o garçom empurrando enorme carrinho, repleto de doces de abóbora com coco, cidra, pudim de leite, bolos com dois dedos de cobertura de chantilly etc. Se for verão, para refrescar, a sobremesa é completada por suculentos sorvetes: banana split, sundaes, colegiais etc.

Para desespero das jovens mães, na faixa dos trinta anos, a balança é cruel. A desculpa para ir ao médico é a preocupação com as crianças, que só se alimentam de salgadinhos, biscoitos, chocolates, sorvetes e só bebem refrigerantes.

Na verdade, ela está é mais preocupada com o que restou do belo corpo, que tinha dez anos antes. O desinteresse sexual do marido a preocupa. Este, após dez anos de feliz convivência, ostenta uma próspera barriga, que o impede de tentar qualquer manobra sexual. Ao contemplar, todas as noites, a luta da mulher para caber ma camisola, ele se pergunta como foi possível a sua “tchutchuquinha” transformar-se naquela montanha de gordura.

O médico lhe faz algumas perguntas. A mãe? Diabética, bebia, às escondidas dela mesma, latas de leite condensado; comia, no mínimo três doces e um chocolate por dia e adorava maionese. O pai bebia duas caipirinhas e uma cerveja, na hora do almoço, para abrir o apetite. Seu prato predileto era o popular “sonho de noiva”: virado à paulista, acompanhado por lingüiça e dois ovos. “Coitado”, suspira, “morreu de derrame, doutor”.

Assustado, o médico prescreve-lhe um monte de exames de laboratório, proíbe-a de comer doces, recomenda-lhe um drástico regime alimentar e pede-lhe para trazer, quando voltar com os resultados dos exames, os filhos e o marido.

Vai para casa pensando que em vez do regime vai tomar aquele chá milagroso, que fez a Joana Prado, a “Feiticeira”, e a Tiazinha (aquela mascarada, rainha dos caminhoneiros) perderem dez quilos em uma semana. No supermercado, lembra-se de um comentário da vizinha e triplica a quantidade de rolos de papel higiênico.

Resumo da ópera: no mundo desenvolvido, os que têm renda comem fast food e junk food por falta de tempo.

No 3º Mundo, os mais ricos só imitam hábitos errados: andam de carro, comem “podres delícias”, segundo notou Aldir Blanc, em uma de suas mais conhecidas composições, em parceria com João Bosco; e, depois, gordos e doentes, fazem filas nos postos de saúde.

Mudar hábitos alimentares, cortar gorduras, açúcar, doces, cerveja, chocolate, bolos; fazer exercícios físicos, como caminhadas, enfim, levar vida mais saudável, nem pensar.

Em resumo, pode-se dizer que os ricos comem merda por opção e os excluídos (as famílias gabirus do Brasil e do 3ª Mundo) não têm merda suficiente para comer.


* Kenneth Goodson  é brasilianista e conselheiro para assuntos de alimentação da FAO; é autor, em parceria com Adoniran Barbosa, do ensaio “Mulher, Torresmo e Cachaça em Qualquer Canto se Acha”.