Marx, Keynes e Bakunin

Britânicos mantêm o salutar hábito de, antes do encerramento do ano letivo nas universidades, convocar alunos e professores para uma avaliação informal do rendimento de ambos. Obviamente, os temas escolhidos nessas ocasiões são abordados de forma extremamente livre, o que torna tais encontros criativos e agradáveis. Eles costumam ocorrer entre julho e o início de agosto, ou seja, antes do verão europeu.

Neste ano, o tema escolhido, de comum acordo entre mestres e alunos de Oxford, foi a importância (contestada por muitos, é claro) que Marx, Keynes e Bakunin teriam hoje, em pleno contexto de globalização da economia. Os debates duraram três dias, ocupando manhãs, tardes e noites. Coube-me a ingrata tarefa de apresentar, no encerramento do evento, as considerações finais.

O leitor do Sacolão, aí no Brasil, pode imaginar como terminaria um encontro semelhante, realizado na USP, Unicamp ou Unesp, em São Paulo, por exemplo: discursos sectários e inflamados, “slogans” repetitivos e, no encerramento, grossa pancadaria. Aqui,não. O motivo é simples: mestres e estudantes locais conhecem de antemão todas críticas que adversários de suas idéias lhes farão. Por isso, evitam a polêmica pela polêmica. O resultado é um diálogo fértil e criativo.

Para poupar o leitor, vou direto às conclusões do encontro. Keynesianos, marxistas e anarquistas concordaram, para surpresa geral dos participantes do evento, que os três (Marx, Keynes e Bakunin) ainda terão bastante influência durante a globalização e, principalmente, depois dela.

Anarquistas e keynesianos reconheceram que Marx acertou em três coisas: na globalização, na “mais-valia” (diferença entre o salário pago ao operário e a parte que o patrão embolsa), e na crítica ao trabalho “superfatiado”. O operário não se reconhece na peça que fabrica e que compõe o produto final.

Por sua vez, marxistas e keynesianos admitiram que diversos autores anarquistas acertaram em cheio ao prever, um século antes da globalização, que o consumo determinaria a produção. Meio a contragosto, também aceitaram as críticas (ferozes) que o anarquismo fez ao taylorismo.

Para o leitor entender o que foi o taylorismo, basta lembrar a cena antológica do filme “Tempos Modernos”, do genial Chaplin, em que o operário, preso nas engrenagens de uma máquina, é alimentado por ela, num ritmo frenético.

Determinar a duração da jornada de trabalho, as pausas para descanso e almoço, e até mesmo o tempo de uso do banheiro, na opinião dos anarquistas, transformou o trabalho assalariado em suplício. Se fossem levadas em conta aptidões e horários em que todas as pessoas produzem mais e melhor, a produtividade geral do trabalho poderia ter dado dar um salto espetacular.

Com certeza, argumentaram mestres e alunos simpatizantes do anarquismo, durante o evento, se Taylor tivesse vivido na Renascença, teria exigido que Michelangelo e Leonardo da Vinci, dentre outros, dessem expediente diário, no Vaticano, e nos palácios dos Médicis, em Florença.

A tolerância concedida aos gênios, de acordo com o pensamento anarquista, se tivesse sido estendida aos operários, após a Revolução Industrial,teria multiplicado a produção e a produtividade do capitalismo e, conseqüentemente, os lucros dos capitalistas. Parte desses lucros já seria suficiente para universalizar e manter a rede de proteção social dos trabalhadores (assistência médica, aposentadorias e auxílio-desemprego).

Neste ponto, ou seja, na criação do bem-estar social, marxistas e anarquistas tiveram de reconhecer que a única experiência bem-sucedida, realizada até hoje, foi a do “New Deal”, de Franklin Roosevelt, inspirada em Keynes, que começou após a Depressão americana, na década de 30, e se estendeu por toda a Europa ocidental, depois da Segunda Guerra.

Resumo da ópera: existem coisas boas em Marx, Keynes e em Bakunin, que, se adotadas hoje, poderiam melhorar muito as condições de vida da população do planeta. Durante o evento, foi lembrada também a contribuição dos chamados monetaristas da Escola de Chicago, para quem, na economia, tudo se resolve por meio do controle mais ou menos rígido, conforme as circunstâncias, da oferta de moeda.

Para marxistas, keynesianos e anarquistas, a grande invenção dos monetaristas teria sido o programa de renda mínima, colocado em prática, nos Estados Unidos, que é de 14 mil dólares por ano. Se qualquer pessoa ganhar menos do que esse “piso”, o governo de lá banca a diferença. Essa solução livra as pessoas da miséria e da criminalidade, além de não sobrecarregar a seguridade social.

Pesados prós e contras, o balanço final de três dias de acalorados debates mostrou que, passada a histeria da globalização, em algumas décadas, o Ocidente poderá vir a adotar um regime híbrido, no qual o lucro seja compatível com a distribuição de renda.

Nesse regime hipotético, o trabalho repetitivo e chato seria feito exclusivamente por robôs. Operários teriam atividades e horários escolhidos de acordo com suas aptidões e, ao Estado, caberia o papel de reciclar a riqueza.

Após as conclusões do evento, aberto ao público “leigo”, vieram as inevitáveis perguntas. Uma funcionária da Bolsa de Valores de Londres, chamada Vanessa Accountant, quis saber o que fariam banqueiros e políticos nessa sociedade futurista.

O primeiro a responder foi um estudante anarquista: “Numa sociedade decente, não há lugar nem para banqueiros nem para políticos”, disse. Percebendo o susto da mulher, um professor adepto das idéias de Keynes procurou tranqüilizá-la: “Banqueiros podem ser aproveitados como fiscais de alfândega e políticos como atores de circo”.

Em meio às risadas da platéia, alguém lembrou que, de qualquer forma, políticos e banqueiros teriam, ao menos, direito ao programa de renda mínima. “Por falar nisso”, interrompeu um homem de meia idade, com forte sotaque “cockney” (o falar caipira do povão londrino), que me pareceu ser o jornaleiro da banca, que fica em frente à universidade, “cadê o meu?”

O encarregado de coletar as perguntas pediu que o jornaleiro se explicasse melhor: “O que o senhor quer dizer com a expressão” cadê o meu?”É que nos últimos dois anos minha renda anual não chegou a 14 mil dólares. Eu quero saber a partir de quando terei direito à complementação”.

Como nem todos, aqui em Londres, ao contrário do que reza a lenda, têm senso de humor, alguns não fizeram perguntas, mas simplesmente xingaram os expositores de ingênuos, tolos e idiotas. Um deles, um ortopedista, que se identificou como Bob Butcher, usou a expressão (um jogo de palavras em inglês), equivalente aí, a “otimistas invertebrados”, para qualificar os participantes do evento.

Em resposta, alguns estudantes disseram que Butcher era um reles exemplar de “predador, maníaco-depressivo-competitivo-consumista globalizado”. “E, além disso”, acrescentou o ortopedista, “conservador e carnívoro”.

Para encerrar o evento, foi servido o tradicional chá das cinco. Depois, como no Brasil, a tertúlia continuou rolando solta nos “pubs”. A diferença é que aí a preferência nacional é pela loira, geladíssima. Aqui, ela é moreninha, “brownie”, e bem mais quente. Não deveria ser o contrário?


(*) Kenneth Goodson  é brasilianista e autor de vários ensaios, dentre eles, “Vai Trabalhar, Vagabundo” e “Competição e Mediocridade, os Combustíveis da Globalização”.