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Li,
recentemente, aqui, em Londres, artigo da revista “The Economist”
sobre a política externa do Brasil. O título é,
no mínimo curioso, quando se comparam os indicadores sociais,
econômicos e culturais do País, sabidamente muito
abaixo do que seria razoável: “O Gigante Faz Musculação”.
A extensa reportagem, curiosamente, é assinada por uma
especialista em países emergentes, Delilah Coach, que significa,
ao pé da letra, Dalila (a mulher de Sansão) treinadora.
Calma, leitores! O “The Economist” ainda não
tem seção de humor. Trata-se apenas de uma coincidência,
digna, é claro, de um hipotético “Sacolão”
local, que, infelizmente, ainda não existe por aqui.
Mas, confesso, que isso me deixou meio desconfiado a respeito
da seriedade da reportagem. Apesar disso, fui em frente. Logo
após a cabeça da matéria, que vocês
aí, por imitação aos americanos, chamam de
“lead”, a analista explica que os primeiros exercícios
físicos do “gigante adormecido” podem ser frustrantes.
“No afã de recuperar o tempo perdido”, diz
ela, “o gigante-atleta lembra esses maratonistas de fim
de semana”.
“Tal como eles fazem”, prossegue Dalila, “o
gigante-atleta pode, de repente, terminar num pronto-socorro por
falta de preparo físico e do hábito de se exercitar
com assiduidade”. Além disso, observa a comentarista,
“não devemos nos esquecer de que, apesar do seu tamanho
descomunal, o gigante é meio raquítico”.
Logo após tais observações, a autora do artigo
enumera algumas recentes iniciativas da diplomacia brasileira:
articulação da Comunidade de Países de Língua
Portuguesa (CPLP), parcerias estratégicas com China, Índia
e África do Sul, envio de missões militares ao Timor
Leste e, mais recentemente, ao Haiti; doação de
um navio à Namíbia, nação de independência
recente, localizada no Sudoeste da África. E por aí
vai.
Não é segredo, comenta Dalila, que o Itamaraty lidera
uma campanha internacional para ampliação do Conselho
de Segurança das Nações Unidas, com a inclusão
de importantes países emergentes, dentre os quais, a Índia,
a África do Sul, a Indonésia, o Paquistão,
além do Brasil, que, atualmente, já ocupa um assento
nesse Conselho, em sistema de rodízio e com duração
limitada a dois anos.
Até aí, tudo bem. Mas, segundo Dalila, a “treinadora”
do gigante, “é preciso tomar cuidados com algumas”cascas
de banana”, que a CIA (o serviço de inteligência
americano) costuma colocar no caminho de incautos candidatos ao
estrelato internacional.
Um exemplo recente: americanos e franceses, nota Dalila, juntaram-se
para derrubar Jean Aristide, ex-presidente do Haiti. Concluída
a operação, com sucesso, soldados desses dois países
saíram de lá, deixando o “abacaxi” para
as tropas brasileiras.
“Quando os brasileiros se deram conta, já era tarde”,
comenta Dalila, que, a partir dessa constatação,
passa a cortar as asas, ou melhor, os cabelos do Sansão
brasileiro, seguindo a tradição, iniciada por sua
ancestral bíblica. E aconselha: “Se o Brasil quiser
obter maior visibilidade internacional é melhor –
muito mais barato e seguro – investir na diplomacia esportiva”.
A propósito, ela recorda um episódio real, ocorrido
em 1969, quando a seleção brasileira fazia uma excursão
pela África. O Congo, naquela época como hoje, encontrava-se
em meio a uma sangrenta guerra civil, que parou por uma semana,
para que os dois lados (soldados e civis, homens e mulheres) pudessem
ver Pelé, jogando pela seleção brasileira.
O único problema, que Dalila parece não ter notado,
é que Pelé já parou de jogar há 30
anos. E seu eventual sucessor, o argentino Maradona, está
internado numa clínica, para tratamento de dependência
de cocaína.
(*)
Kenneth Goodson é brasilianista e autor
de diversos ensaios, dentre eles “FMI: a Dalila dos Emergentes”
e “Bill Gates, o Pelé dos Ricos”. |