Com Lula na China

Fui à China na comitiva do Presidente Lula. Já de volta à minha tranqüila Porkville, se querem saber, nunca mais. Basta imaginar um Boeing cheio até os tampos com apenas dois banheiros e empresários com notebooks, fazendo corar minha Smith-Corona 1956. Isso sem contar companheiros barbudos falando alto e reclamando não ter a aeronave uma sala para reuniões. Eles não vivem sem reuniões.

Olharam-me torto durante toda a viagem. O correspondente inglês do New York Times causou grandes estragos. Sossegaram quando souberam ser eu um brasilianista de Porkville, Iowa, colunista do Daily Weekly.

O brasilianista inglês Kenneth Goodson não foi, pois houveram por bem, depois de muita polêmica sobre a bebida, que aquilo seria um avião sóbrio. Mesmo porque, ele não agüentaria passar 30 horas de viagem sem uma talagada de gim.

Na primeira reunião, ainda no aeroporto de Pequim, depois da recepção digna a um Chefe de Estado, ficou decidido que nenhum companheiro comeria carne de cachorro. Foi uma luta, disseram, dissuadir a Primeira Dama, Dona Marisa, trazer para a China sua cachorrinha, que correria grande perigo caso escapasse do hotel. Ou uma ofensa para os chineses, segundo outros, o ato desagradável de convidados trazerem sua própria comida.

O presidente Lula esteve sempre desenvolto. Fez discursos e assinou acordos. Nenhuma dificuldade teve o intérprete que, como ele, trocava o P pelo B.

Inaugurou um escritório da Petrobrás em Pequim e houve – coincidência ou não – um aumento do preço da gasolina na China.

Astuto, conseguiu também uma planta da Muralha da China, solução mais que imediata para evitar invasões do MST no Brasil.

Em troca de um pacote com todos os programas da Hebe Camargo, desde 1957, e milhares de fotos autografadas de Lucélia Santos,os chineses construirão uma ferrovia no Norte do país.

Separadamente – consultando antes a prefeita Martha, por telefone – o governador Geraldo Alckmin, vendo na China um potencial no livre-comércio informal, fechou acordo de exportação de lotes mensais de camelôs de São Paulo.

Os companheiros se decepcionaram, não encontrando chaveirinhos de Mao para trazerem como suvenir. “Foi apenas um Mao necessário”, respondiam os chineses, rindo às bandeiras despregadas do próprio trocadilho.

“Os livrinhos vermelhos de Mao foram usados para assar cachorros”, disseram os balconistas de livrarias e sebos, causando engulhos em outros companheiros em busca da preciosidade.

De decepção em decepção, a comitiva de barba não viu um único elemento da Guarda Vermelha com a estrelinha vermelha do PT no boné, fugindo das carrocinhas de “hot dogs” como o diabo foge da cruz.

Os que não conseguiram ir a recepções e reuniões oficiais com as bicicletas cedidas pelo governo foram atropelados por elas, no caótico e congestionado trânsito de Pequim.

Eu fiquei todo o tempo no hotel, que não tenho mais idade para pedalar, sabendo das notícias pelos jornais editados em inglês, matraqueando na Smith–Corona 1956, o que foi a bem-sucedida visita do Presidente Lula à China.


(*) Stan Oliver Laurel, brasilianista e membro de 18 sociedades internacionais de proteção à flora e à fauna,só conseguiu visto de entrada na China com a intervenção do Itamaraty. O governo chinês o considerou persona non grata por causa de sua implacável campanha contra o uso de cães como alimento humano.