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Eu
sou de outra época e não acompanho muito a política
atual. Pelo que minhas amigas me contam, não estou perdendo
nada. É por isso que não entendo a confusão
toda que estão armando contra os bingos. Meu segundo marido,
o Bento, foi crupiê de um cassino em Petrópolis,
no tempo em que o governo deixava o jogo livre no Brasil.Não
sei se a geração atual tem noção do
que é crupiê, mas só para esclarecer, era
o homem que cuidava das fichas e das apostas nas mesas de jogo.
Pois bem, muitas noites, quando o Bento ficava até de madrugada
no cassino, eu e duas amigas, a Berenice, que eu chamava de Nicinha,
e era uma graça de pessoa, e a Clô (o nome era Clotilde,
mas ela detestava) íamos para a casa do meu cunhado, o
Nestor, e ficávamos lá jogando víspora até
o Bento chegar.Acho que os jovens de hoje não têm
a menor idéia do que é víspora,não
é mesmo? Explico que esse era o nome que o bingo tinha
anos e anos atrás. Engraçado, víspora, não
é?
Ah, que saudades daqueles tempos! A gente se divertia bastante,
tudo com inocência, sem maldade, se bem que, quando as crianças
já estavam dormindo, saíam umas anedotas bem picantes,
que deixavam a Nicinha envergonhada e vermelha como um tomate
maduro! Fora isso, eram só brincadeira e diversão,
muitos risos e gargalhadas.
Uma noite, apareceu no víspora o cunhado do Nestor, o Almenário,
rapaz bonito, educado e instruído, que estudava em Juiz
de Fora para ser farmacêutico, e a Nicinha não tirava
os olhos dele. Para encurtar estas minhas lembranças, a
amizade entre os dois foi crescendo, eles viraram namorados e
acabaram se casando.E estão agora com quatro filhos todos
formados!
A gente jogava víspora, às vezes até por
dinheiro, o Bento tinha um bom salário no cassino, nossa
vida era tranqüila e o jogo naquele tempo não parecia
a coisa terrível e cheia de maldade que é hoje.
Por isso, quando a minha neta, a Regiane, reclama que eu só
vivo no passado, eu penso cá comigo: Ainda bem. Aqueles
tempos eram tão bons, bem diferentes do horror que é
o mundo hoje em dia.Por isso que os coroas são felizes,
pois eles têm o que lembrar.
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