A última do português

Principal motivo de escárnio e maldizer – à moda das cantigas medievais – dos brasileiros sem assunto, em mesas de bar, os portugueses também costumam divertir-se com a propalada (em boca própria, claro) agilidade mental dos “brasucas”, como são chamados, em Lisboa e no Porto, principalmente, os naturais da Lusitânia Antártica. Atenção, leitor: não confundir com a marca homônima de cerveja, que têm como símbolos dois pingüins.

Aqui, em Londres, de onde escrevo para o Sacolão, são particularmente famosas duas anedotas que lusitanos cultos contam sobre brasileiros. A primeira delas foi recolhida por um folclorista de Trás-os-Montes, chamado Joaquim da Tâmara Bicudo, em seu famoso livro “As Fantásticas Aventuras de Bocage”.

Calma, leitor: não é o que você está pensando. Ao contrário da lenda que corre aí no Brasil, no imaginário popular da “terrinha”, o poeta Manuel Maria Barbosa Du Bocage, de ascendência francesa, virou uma espécie de Dom Quixote às avessas: ou seja, ele sempre se dá bem. Por motivos desconhecidos, as façanhas do herói Bocage, quando contadas aí, no Brasil, limitaram-se apenas às artes de alcova.

Bocage – o folclorista não esclarece se é o poeta ou o herói popular - , ao ser informado, em Lisboa, da elevadíssima quantia paga a Portugal, a título de indenização, por conta da biblioteca da família real portuguesa, levada por Dom João VI, em 1808, quando instalou a corte no Rio de Janeiro, teria dito: “Uma coisa, pá, confesso que não entendi: para que pagar quantia tão elevada por milhares de livros que nunca serão abertos?”

E ele tinha razão. A infeliz negociação deu origem à famosa e impagável dívida externa brasileira. A Inglaterra fez um empréstimo para que o Brasil pagasse a indenização a Portugal. O resto veio depois com financiamentos para construção de ferrovias. Daí em diante, virou uma bola de neve.

Passados mais de 100 anos, na década de 1960, no Rio de Janeiro, durante visita à Biblioteca Nacional, o poeta Agripino Grieco – famoso por suas tiradas irônicas – , ao entrar na sala principal do acervo, levou o indicador à altura do nariz, fazendo o tradicional psssiiiiuuu. Obviamente, toda a comitiva voltou-se para ele, que emendou, de sem-pulo: “É para não despertar as virgens!”

A segunda anedota famosa aconteceu em 1972, também no Rio de Janeiro. Comemoravam-se os 150 anos da Independência. Dois anos antes, no México, a seleção brasileira havia conquistado o tricampeonato mundial de futebol, o que lhe deu o direito à posse definitiva da taça Jules Rimet, homenagem ao francês homônimo, fundador e primeiro presidente da Fifa.

Os dirigentes da então CBD (atual CBF) resolveram expor a taça, na entrada de um banco oficial, no centro do Rio de Janeiro. E aconteceu o inevitável: a Jules Rimet, toda esculpida em ouro, foi roubada por uma quadrilha, numa ação espetacular, que ganhou muito destaque dos jornais da época.

O episódio logo caiu no esquecimento. Mas, tempos depois, voltou a ganhar as manchetes, quando, constrangida, a CBF declarou que a taça roubada era a original e não a cópia, como até então se acreditava.

Quando tiveram início as festas dos 150 anos da Independência, o duplo impacto, causado pelo roubo da taça e pela revelação de que era a estátua original e não a cópia, tomava conta da cidade. Foi nesse clima que desembarcou, no Rio, a comitiva oficial portuguesa, tendo à frente o general Craveiro Lopes.

Tão logo soube do ocorrido, o pessoal do cerimonial português recomendou que o tema fosse simplesmente ignorado durante as solenidades. Enfastiado, após passar o dia a ouvir inúmeros discursos, o general Craveiro pôde, finalmente, recolher-se, em companhia da esposa, na suíte de um hotel, que lhe havia sido reservada.

Espreguiçou-se, afrouxou o nó da gravata, e já ia tirando a casaca, quando o telefone tocou. Era o chefe do cerimonial querendo saber se necessitava de alguma coisa. “Água mineral e vinho do Porto”, foi a resposta. A sós com o garçom, enquanto a mulher retirava a maquiagem do rosto, no cômodo em que ficava a cama do casal, o general perguntou ao serviçal se era verdade que a estátua roubada era autêntica.

“É, sim, excelência”, respondeu o garçom. Pensando em voz alta, segundo relatou, posteriormente, já em Lisboa, a colegas de profissão, o jornalista Américo Souto Maior, do “ABC de Leiria”, e ignorando a presença do garçom, o general teria exclamado, meio irritado: “Vai ser burro assim lá no Alentejo!”

O pobre garçom sentiu-se, de repente, sempre de acordo com o relato de Souto Maior, na obrigação de explicar o inexplicável e arriscou um palpite: “Talvez, excelência, o pessoal da CBF tenha feito isso para tentar enganar os larápios”.

Passaram-se, então, alguns segundos, necessários para que o general traduzisse o que acabara de ouvir, expresso em linguajar popular, em idioma luso-brasileiro, falado no Rio, para o de Lisboa, antes que Craveiro Lopes explodisse numa sonora gargalhada.

Sem entender direito o que se passava, a mulher do general, atraída pelo barulho, ao ver o marido, deitado no chão e se contorcendo, ordenou ao garçom que chamasse um medico, com urgência. Imaginava tratar-se de um ataque de epilepsia ou coisa parecida.

De acordo com Souto Maior, Craveiro levou quase meia hora para controlar o acesso de riso. Foram várias tentativas. Quando conseguia colocar-se em pé e o acesso de riso parecia sob controle, eis que nova onda – sempre mais barulhenta e espalhafatosa que o anterior – o derrubava.

Enquanto viveu, conta a lenda, que se criou em torno do episódio, em Portugal, o general gostava de contar essa história a amigos e freqüentadores de sua casa. Em tais ocasiões, informa o escriba do “ABC de Leiria”, Craveiro – que quando jovem queria ser comediante – não se cansava de reinventá-la, sempre acrescentando novos detalhes. Divertia-se muito ao imitar o sotaque do garçom carioca.

Invariavelmente, a história começava assim: “Vocês sabem a última do brasileiro?”... E terminava, minutos depois, com o general rolando no chão.


(*) Kenneth Goodson  é brasilianista, autor de diversos ensaios, dentre eles, “Brasil e Portugal: Dois Povos Separados pela Mesma Língua”, em parceria com George Bernard Shaw.