Gregos vencem a
2ª Guerra de Tróia

Correspondente na Europa

Finalmente, passados mais de três milênios, o poeta Homero - aquele que era cego, mas que, mesmo assim, conseguiu escrever a "Ilíada" e a "Odisséia" - deve estar rolando de felicidade, no Olimpo, ao lado de Zeus, Athena, Hércules, Aquiles, dentre outros, menos cotados: os gregos modernos venceram mais uma Guerra de Tróia.

No dia 25 de abril, em plebiscito, realizado na ilha de Chipre, os cipriotas de origem grega (descendentes dos gregos modernos, que ocupam aquela ilha há vários séculos, e que constituem a maioria dos habitantes de Chipre), disseram "sim" ao ingresso na União Européia; e não à reconciliação com cipriotas de origem turca, que habitam o Norte da ilha.

Com isso, apenas parte da ilha, constituída por cipriotas de origem grega, terá acesso à União Européia. Por sua vez, os turcos - que já tiveram seu pedido de ingresso na Europa (desde o dia 1º de maio, ela conta com 25 países-membros) várias vezes negado - amargaram nova derrota. Se o plebiscito tivesse sido favorável à reconciliação com a minoria de origem turca, em Chipre, a Turquia teria conseguido colocar, ainda que por tabela, um pé na Europa.

Esse tema foi abordado aqui, na Suíça, por todos os jornais (de expressão alemã, francesa, italiana e até romanche). O modesto vespertino intitulado "Cras", que, em latim, significa amanhã, editado no Cantão dos Grisões, traz, a propósito, em sua edição de 28 de abril, a esclarecedora manchete: "Homero riu por último".

Num país cosmopolita e, ao mesmo tempo, provinciano, como é a Suíça, que melhor assunto poderia ocupar a inteligência de articulistas locais que esse?

O vetusto "Zurich Zeitung" traz, em alemão, a sentença: "Chipre também veta entrada da Turquia na Europa". O "também" é porque, por várias vezes, a Europa comunitária já se manifestou contrária à entrada da Turquia.

Em Genebra, o "L'Avenir" ironiza: "A europeização da Turquia parou em Chipre". A matéria, que vem logo abaixo do título, explica que, apesar dos esforços, empreendidos por sucessivos governos turcos, para modernizar as instituições do país, ao longo do século 20, as coisas parecem ter voltado à estaca zero.

No pé da reportagem, o articulista lembra a posição do ex-presidente francês, Valéry Giscard D'Estaing, para quem, "se a Turquia, algum dia, vier a entrar na União Européia, isso equivalerá à implosão da comunidade européia".

Muito mais irônico - e caricatural - foi o título da "Gazzetta di Lugano": "Pernacchia, ao turchi". A expressão equivale, aí no Brasil, a "banana para os turcos". Só que, em italiano, a expressão vem acompanhada por uma sonora onomatopéia, que se consegue pondo-se a língua entre os lábios, e assoprando, o que resulta num som parecido com "pppprrrr...".

Só para refrescar a memória dos intelectuais brasileiros: a rivalidade entre gregos e turcos, ou melhor, troianos foi contada por Homero, em a "Ilíada" (derivada da palavra Ilyon, que, em grego antigo, significa Tróia); e na "Odisséia".

Nessas duas obras, consideradas os primeiros poemas épicos do Ocidente, o poeta grego conta-nos o rapto da rainha grega, Helena, por Heitor, o rei de Tróia, quando ele, acompanhado por numerosa comitiva, visitou a Grécia e deixou-se seduzir pelos encantos de Helena.

Claro que os gregos não deixaram barato e enviaram seus exércitos até à mítica Tróia para recuperar a sua belíssima rainha e, digamos assim, dar um corretivo nos ousados troianos. Um estratagema bolado pelos gregos garantiu-lhes a vitória sobre os troianos: fizeram um gigantesco cavalo de madeira, repleto de soldados gregos bem armados e o deram de presente aos ancestrais dos turcos. O episódio deu origem e consagrou as expressões "cavalo de Tróia" e "presente de grego".

Na "Odisséia", Homero nos conta as aventuras de Ulysses (Odisseu, em grego antigo) na sua volta a Atenas, após a guerra de Tróia. Acontece que o herói grego, mais perdido do que cego em tiroteio, antes de voltar à sua pátria, foi atraído, para lugares desconhecidos, por sereias, ninfas, nereidas e deusas da mitologia grega, todas cheias de amor para dar e louquinhas por heróis.

Com isso, o pobre Ulysses fez um cruzeiro pelo Mediterrâneo e, de naufrágio em naufrágio, chegou à Sicília, à Sardenha e, talvez, até a Córsega. Na rota de volta à Grécia, parou em vários portos da costa africana, onde era invariavelmente "ordenhado" por rainhas e princesas. De tal sorte que, quando, finalmente, após alguns anos de vadiagem, voltou para a sua Penélope, não tinha sobrado nada para ela.

E, imaginem, só, leitores, o estado de carência da coitada da Penélope, que ficou anos à espera do seu herói, recusando vários pretendentes, que a cortejaram durante a ausência de Ulysses. Pelo menos, esse é o "release", ou seja, a história oficial.

A "Ilíada" e a "Odisséia" foram traduzidas, aí, no Brasil, pelos irmãos Campos (um deles já falecido), mas, é claro, que ninguém leu. Pra que ler se, era previsível, que os americanos iriam transformar essas aventuras em superproduções? Valeu a pena esperar. Logo, logo, as intelectuais brasileiras entrarão em orgasmo, ao verem, na tela, Brad Pitt no papel de Aquiles, num filme chamado "Tróia".

Para concluir: em 1974, a Turquia resolveu invadir Chipre e, unilateralmente, manteve o controle militar sobre a ilha, ignorando, solenemente, todas as tentativas de negociação, intermediadas pela ONU. Com isso, emblematicamente, no imaginário popular turco, estava-se empatando um jogo que os troianos (seus ancestrais) haviam perdido para os gregos.

Mas no 25 de abril, os eleitores cipriotas de origem grega, ouvindo o coro de seus ancestrais mortos, há milênios, conseguiram impedir o novo rapto da moderna Helena, chamada de União Européia.


(*) Werner Ghestaldo é apátrida, radicado na Suíça, e, em outra encarnação, foi troiano e participou do rapto de Helena.