A dengue da corte

Nunca me aconteceu, que tenho saúde de ferro. Cobri a invasão Aliada na Europa rastejando em brejos, convivi com milhões de mosquitos na Guerra do Pacífico, chafurdei em pântanos no Vietnã, tomei água com petróleo na Invasão do Golfo com George Bush, pai, e não apanhei um só resfriado.

Meus leitores do Daily Weekly , de Porkville, Iowa, são testemunhas que não deixaram de ler minha coluna um dia sequer, nessa maratona jornalística hercúlea. Com exceção de minhas férias com minha querida esposa Mary Ann, - e uns outros dias dedicados à pesca de trutas - nunca faltei com minhas opiniões, em minhas andanças pelo mundo, naquele hebdomadário.

Bastou, porém, tornar-me brasilianista e os problemas começaram. Apanhei malária visitando os ianomâmis , bicho-de-pé num acampamento dos sem-terra e diarréia no litoral paulista em um feriado prolongado. Dos problemas no fígado, não culpo o Brasil. Foi conseqüência da companhia do brasilianista inglês Kenneth Goodson, que é movido a gim, qualquer gim.

E foi idéia do biltre entrarmos escondidos nos jardins do Palácio da Alvorada, em Brasília, para fotografarmos de perto a estrela do PT , feita por um jardineiro a pedido da primeira dama, Dona Marisa.

Nenhum homem de bem poderia imaginar que, nas barbas do poder, proliferava um bem nutrido enxame de mosquitos da dengue.

Não devem picar os membros da corte, aliados que foram do PT no processo de infernização do Ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso, José Serra.

E impossível seria - além da bursite e um terçol - não se notar tremores e suores frios no Presidente Lula, com todos aqueles insetos esvoaçantes bem nas portas da cozinha do palácio.

Foi assim - com tremores e suores frios - que enfrentei 15 horas, deitado no chão metálico da Kombi verde abacate da Associação dos Brasilianistas, em minha volta para São Paulo.

"Iriam te cortar uma perna", disse o brasilianista inglês, quando insinuei procurar um hospital em Brasília.

Na capital paulista, procuramos um posto do INSS, facilmente identificável por uma fila de quatro quarteirões.

Fomos recepcionados por dois rapazes de bermudas e tocas de meia-calça na cabeça, que se prontificaram a me arrumar um lugar bem mais confortável no começo da fila.

Pela minha aparência de estrangeiro, fui conduzido a uma pequena mesa com um aparelho eletrônico que aceitava cartões de crédito internacional, além de um café quente "de grátis", disseram eles.

Instalado em um banquinho de campanha - recebendo olhares furibundos de beneficiários - li na porta do posto que estavam em greve.

"Com greve ou sem greve, a fila nunca anda mesmo", confortaram-me eles. E ofereceram, por mais um tanto de reais, a assistência de um pastor evangélico, o passe de um pai-de-santo ou um banho de assento com água benta - bem mais baratinho.

Agarrado à minha Smith-Corona 1956, tremendo e amparado por Kenneth Goodson, resignadamente ditei meu testamento e desmaiei.

Acordei na minha cama em Porkville, nos braços confortáveis de Mary Ann, que me aconselhou a mudar de profissão e aceitar o emprego de guia de pesca de trutas nos riachos gelados de Iowa.


(*) Stan Oliver Laurel, brasilianista há 20 anos, decidiu abraçar a profissão graças a uma promessa. Quando pegou sarampo, numa visita a Brasília, em 84, esteve às portas da morte e implorou aos médicos pela vida. Foi salvo pela reza de um índio ianomâmi, chamado Okrunacaremã. Agradecido, deu ao primeiro filho o nome do seu salvador. Okrunacaremã Oliver Laurel é atualmente acrobata de circo em Istambul.